Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Blog novo!!!
Mas o Pequeno Infinito continua.

"La veine entre les deux" é feito em dueto. Dois mundos. Um mundo só. A vida que corre na veia, na veia entre os dois...

www.notreveine.blogspot.com

Domingo, 16 de Novembro de 2008




Uma tela branca.
É o que nos sobra. É o que nos diz. E por trás dela, se há ou não algo que nos torne a falar, nos é apenas uma tela branca.

Não tento ver. Meus olhos são demasiado cegos e aguçados. E é no aguçar que os transformo cegos.

Só uma tela branca. Só palavras numa tela branca.
E negro é o meu olhar.

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008




Tenta-se a vida.
Nunca tenta-se a morte.
Insistimos em vida.
Somos iguais nas nossas tentativas.
Somos diferentes com o que elas nos trazem.
Todo mundo quer um sono tranqüilo.
Descansemos...

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008


Tua melancolia me bate à porta como um bêbado ávido para chegar em casa, violento, trôpego, de palavras enroladas e aos gritos.


Tua melancolia me soa como o soprar do vento que entra sorrateiro pela fresta da janela mal fechada, um assobio leve que toca os pêlos dos meus braços.


Tua melancolia é funda, é cheia, é rica. Mas tua melancolia é, antes, triste. É necessária. Mas é triste. É parte de ti. Mas é a parte triste. Que te faz existir feliz. Mas é triste.


Esperei o inverno chegar ao céu. Esperei a chuva cair, brutal. Mas vi o colorido dos guardas-chuva na rua.


Esperei o acorde triste da música. Esperei o lamento do violoncelo. Mas vi a expressão satisfeita da solista.


Não toques, apenas, os dissonantes. Não toques, apenas, os maiores. Toque o que deve ser tocado, o que os dedos o levarem a tocar.


Mas toques vida. A vida que caleja os teus dedos com suas cordas, que dilacera a carne como lâmina afiada. A vida que te fecha as feridas, que suaviza a tua pele. A vida melancólica. A vida flamejante.


Tua melancolia dorme no meu travesseiro, se aconchega no meu lençol. Chora baixinho à noite e acorda adormecida. Permanece. Esvaece-se. Retorna. Luto.


Tua melancolia está comigo. “É” comigo. Sou eu. Somos.

E melancólicos ou não, somos ela.


Dentro dos seus olhos a poesia é tão comum...

Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008


Onde estão os pés?
Onde estão as linhas, o contorno dos dedos?
Onde está a areia afundada, a vírgula impressa nela?
Não se vê pegadas.
Não se vê a trilha, o caminho tortuoso que acaba no horizonte e segue a costa.

Ressaca. O mar e sua ressaca.
A espuma apagou o chão.
A espuma acepilhou a areia.
Plano. Tudo ficou plano.
O baixo relevo nunca existira.
Agora o que se tem é imensidão.
Uma imensidão sem rastros.

E o mar paralisa os movimentos.
Não porque é belo. Não para ser contemplado.
É medo...
O mar poderoso que perverteu a certeza em grandeza incerta.
O que se percorreu? Não se vê!
Até onde desta vez?
Tolice tentar descobrir!

Desiste-se.
Não anda-se mais pela areia,
Não acompanha-se mais a costa.
Para o mar apagar?

Não.

Que agora ande-se na direção das ondas,
no caminho das águas que não marcam pisadas.
E entra-se mais,
até que submerja-se.
E aí, já não se pisa com o peso de antes.
Não se anda, porque não tomamos mais pé.

Nadar.
Nadar em busca do azul do fundo.
Sem pegadas.
Sem caminhos.

(À estória de quem está demasiado perto. À estória dos dois, que tanto me alegra escutar...)


Ela era grande. Ele tinha braços compridos.
Ela era abstração. Ele lia Nietzsche.
Ela tinha cabelos longos. Ele, mãos firmes.
Ela era frágil. Ele, cauteloso.
Ela era impulsiva. Ele, o impulso.
Ela parava no tempo. Ele era contemplativo.
Ela gostava da grama. Ele sentava-se ali.
Ela dizia o "não" e o porquê. Ele dizia: por que não?
Ela queria vencer a correnteza. Ele a puxava pelo braço.
Ela queria ver o mar. Ele a levou ao outro lado dele.
Ela via a poesia no muro sujo. Ele fazia a poesia dela.
Ela se perguntava sobre a morte. Ele lhe soprava o vento quente de dias de verão.
Ela quis verdade. Ele a beijou com olhos abertos.
Ela tentou um golpe. Ele segurou sua cintura e dançou um tango.

Ela era melancolia. Ele era bossa.
Ela fez uma pergunta. Ele lhe escreveu um poema.
Ela procurou as palavras certas. Ele a tocou da maneira certa.
Ela pensava em trabalho. Ele imaginava uma casa no campo.
Ela explicou horas a fio. Ele cantou só uma canção.
Ela era o piano desafinado. Ele era o Tom.

Ela era feita de ar.
Ele também.

Ela era e queria pouco.
Ele era e queria pouco.
Mas eles tinham, um ao outro.
E com isso, tinham muito.

Ela era feita de fogo.
Ele também.

Havia amor. Há amor.
E isso basta a eles...

Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

A obra Cefichiana

Que me perdoe quem defende a arquitetura Cefichiana... Procurei arte nas pilastras do CFCH, nos desenhos das escadas, no piso que, ora brilha, ora pára o passo. Procurei arte nos elevadores temperamentais que sobem e descem, e param e caem e não funcionam. Procurei qualquer coisa para admirar ali, mas a pilastra muito saliente pulando para o meio da sala me impediu. E assim me desiludi. Esqueci qualquer possibilidade que houvesse digna de mudar minha impressão. E por um ano e meio me contentei em, pelo menos, aquele prédio ter carteiras nas salas de aula.

Me arrependi há cinco horas atrás. Conheço o CFCH diurno, expondo sua imperfeição muito claramente. Conheço o CFCH vespertino, preguiçoso e doido para tirar um cochilo. Conheço o CFCH noturno e seus dentes de vampiro salientes. Mas nunca estive exatamente às três horas da tarde no corredor do segundo andar. Posso ter passado qualquer hora da tarde, mas acho que nunca às três horas. Hoje, eu passei...

O sol que batia na parede de elementos vazados, os conhecidos combogós cor de telha do prédio, transformara o chão num tapete de bolinhas brilhantes. Eu não via parede, portas, murais e comecei a andar sobre os pontinhos amarelos... Atravessei todo o corredor sem-fim a passos lentos, como que para aproveitar toda aquela sensação nova. Sensações novas devem ser provadas lentamente, mesmo as que são desagradáveis, para conhecê-las ao máximo e querer repetir ou não, com toda a propriedade.

Provei. Cheguei no final onde não existia mais a parte vazada. Disfarcei para ninguém fazer mau juízo de mim, afinal, o que faria uma estudante de psicologia andando de um lado para o outro do corredor sem objetivo e olhando para o chão? Uma depressiva? Obsessiva- compulsiva? Esquizofrênica? Abri a bolsa, fiz de conta que esquecera alguma coisa do outro lado e voltei, ansiosa para sentir o chão reluzente e sentir minhas pupilas no frêmito de contrair e dilatar. Mas, no meio do caminho, logo depois de uma piscadela que dei, tudo evaporou. O chão estava como sempre fora, como sempre é quando sento nele toda manhã para relaxar: escuro, com seus pontinhos pretos normais. Parei inconscientemente esperando o fenômeno acontecer novamente. Não houve nada.

Fui embora me perguntando o que teria sido aquilo tudo. Não sei se uma alucinação da minha cabeça fantasiosa ou se realmente aconteceu. E, se aconteceu mesmo, duvido que se repita do jeito que aconteceu. Não era o sol brilhando nos combogós do CFCH. Era algo mais e não cabe a mim tentar, em vão, procurar meios para descrever o que foi realmente.

Saí do prédio e não pensei mais em procurar arte ali.

Voltei para casa depois de mais um dia no nada dadaísta CFCH...

Voltei para casa depois de descobrir o realismo fantástico do CFCH...

Segunda-feira, 30 de Junho de 2008




Veia dilatada que comprime... E dilata...
Via que se esconde e que se acha.

O corpo que vive e morre tão logo.

O copo que enche e não transborda.


A atriz e sua dramaticidade.

O seu triz na sua vontade

Que desfaz os dedos invisíveis e seus laços,

Que refaz o medo a cada abraço.


Veia que comprime planos.

Eu a via.

Eu a vejo.

Sexta-feira, 20 de Junho de 2008



Vo - la - ti - li - da - de...

O volátil hermeticamente fechado.
O volátil com rolha de vinho barato.

Eu bebo o vinho de quinta. Ressaca de quinta.
Moralismo de segunda-feira!

Os prazeres são voláteis.
Éter nos sentidos... Sentidos estéreis.

Os prazeres são voláteis.
Eu sou volátil.
Hermeticamente fechada numa garrafa...
... com rolha de vinho barato...

Sábado, 24 de Maio de 2008

O aniversário Della


Ela é minha personagem, meu alter-ego, minha colaboradora, minha crítica literária, minha analista não-formada, minha amiga hoje, amanhã, e depois, e depois...


Ela é a extensão da minha cabeça pensativa demais, porque ela escuta e responde com a ausência das palavras.


Ela é meu superego porque ela é SUPER!

Ela é Della, mas ela é minha também...

E isso já basta.

Parabéns, Dellosa!

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

As cinzas no cinza


Não gosto de dias de verão porque as cores gritam e se mostram no céu.
Prefiro os dias cinzentos para poder imaginar as cores que eu bem quiser.
Gosto do céu cinza porque ele sou eu.
E se a chuva cai, ela também sou eu.
E se a tempestade chega, ela sou eu.

Prefiro os dias cinzentos porque minha alma é clara e ofusca meus olhos.
Porque há cores em mim que me confundem...

Gosto do cinza porque ele me encobre e alivia o peso.
Gosto do cinza porque me escondo.
Sou cinza porque sou a covarde atrás dele.


Quarta-feira, 14 de Maio de 2008


O silêncio que entra pela fresta da porta faz um barulho assustador.
Prefiro o silêncio que entra pela janela aberta, que me toca sem sustos.

É por isso que minha porta não tem frestas nem espaços.
É por isso que eu escancaro minhas janelas...

Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Stuck in a moment


Querida,

Eu estive pensando: eu não tenho medo de nada neste mundo. Eu já vivi tanta coisa,
que não há nada do que você possa jogar em mim que eu já não tenha ouvido. Acho que
é por isso que não consigo compor como antes. Às vezes, querida, eu só tento
encontrar uma melodia decente ou fazer uma canção que eu possa cantar em minha
própria companhia.

Não consigo parar de pensar nas coisas que você tem me demonstrado. Eu nunca te
achei uma boba, nunca. Mas, querida, olhe para si agora... Você tem que ficar em
pé, conseguir carregar seu próprio peso. Você chorar desse jeito não vai adiantar.
Essas suas lágrimas não irão a lugar algum.

Entenda, você tem que chegar a um acordo consigo mesma e não ficar presa a um
momento sem conseguir sair dele, como está acontecendo. Não cruze seus braços como
está fazendo, não ache que o tempo vai resolver tudo se você nem se move para tentar
sair desse momento que está prendendo seu corpo.

Eu pensei bem e entendi que seria impossível renunciar às cores que você me traz.
Me lembro das noites que você preenchia com fogos de artifício e que, hoje, elas
te abandonaram. Mas essa luz, que antes era trazida por sua alma, me enfeitiça até
agora, mesmo sem existir mais. Eu ouço através dos seus ouvidos e posso ver através
dos seus olhos.
 
Sabe, às vezes acho que você é uma boba mesmo, por se atormentar tanto. Eu sei que
é duro, que quase nunca o que você consegue é o bastante, ou o que é realmente
necessário. Porque o muito para você é pouco, querida. Eu sei o quanto é difícil...
 
Isso tudo eu percebi quando eu estava meio inconsciente, meio adormecido, quando
tudo na minha cabeça ficou claro e quis te escrever. Sentindo o que você é, como é
e a sua intensidade, eu descobri que a água só é morna até que se descubra o quanto
ela é profunda. Você sempre foi profundeza para mim...
 
Tentar enxergar mais de você não é um pulo do meu para o seu mundo, é uma queda
violenta, uma queda rumo ao nada absoluto. Você tem que dar a volta por cima, meu
amor. Você está paralisada num momento e não consegue sair dele...
 
Se a noite se exceder, se o dia não durar, se o nosso caminho estremecesse ao longo
de um caminho de pedras, não se exaspere, meu bem...

É apenas um momento.

E esse tempo passará...
 
                               Do sempre seu.

Quinta-feira, 1 de Maio de 2008


A gente, às vezes, se engana nas palavras, se excede no gesto, aperta demais o abraço, se descontrola no choro.


A gente, às vezes, transforma o amor em posse, amizade em amor, amor em ódio, ódio em alimento. A gente exagera nos sentimentos, na importância de um olhar, na demora de um beijo, no "eu te amo".


A gente, às vezes, quer no outro o que não temos, quer no outro o que também temos, e quer mais. A gente peca por excesso e pela falta. Mas sempre peca...

A gente, às vezes, não é gentil o suficiente, não é capaz o suficiente, não é bom o suficiente. A gente tenta, se esforça, insiste, racionaliza. A gente grita, teima, impõe, questiona.


A gente, às vezes, acerta quando aceita o erro ou o renega. A gente tenta perdoar a si próprio, procura piedade dentro do corpo, tenta aliviar as dores pressionando as feridas, sarando as culpas.

A gente é o que é.

Só nos resta sabermos o que, realmente, somos.

Gardênia: um exemplo a ser seguido - ou não...

(na foto, Gardênia - de escova no cabelo e temporariamente morena - entre o publicitário e o designer. Os outros dois viajavam a trabalho)

Gardênia, vulgo Deninha, estava morando na França há seis meses. Foi disposta a estudar temas sobre as representações sociais dos gêneros no cinema, como feminista que era. Mas, desde a sua chegada, não tinha conseguido se concentrar, de tão encantada com sua mais nova e doce convivência européia.

Ela era filha de um usineiro riquíssimo de Minas Gerais e dinheiro era o que não lhe faltava, assim como humildade. Estudava francês aos sábados, falava inglês e espanhol. Ruiva, de olhos claros, cabelos cacheados, com um sorriso encantador e uma simpatia invejável, era a mulher que os franceses branquelos e frios sempre sonharam. Andava meio perdida, se adaptando à nova e tão esperada fase da sua vida.

As novidades do lugar e seus pretendentes norteavam sua atenção para todas as coisas, menos para a universidade. Porém, os estudos ainda estavam em seus planos. Era só uma questão de tempo. Gardênia sempre foi muito estudiosa, mas tinha acessos de fuga temporários. Dos seus pretendentes, pode-se contar quatro: um militar, um médico, um publicitário e um designer bastante conhecido.

O médico, típico galã de cinema solitário, com cinco anos a mais do que ela e com uma inteligência fora do comum, a atraía bastante. Eles conversavam sobre lançamentos de livros, filmes e arte em geral. Ah, ele adorava Martin Scorsese, como ela. Conheceram-se no aeroporto, quando Deninha, que morria de medo de avião, quase desmaiou depois do desembarque (ela costumava ter reações tardias). Não sabia ela que ganharia um fã - e ele, uma razão pra viver - depois do seu atendimento.

O publicitário era quatro anos mais novo, porém, possuía uma lábia que transpassava as dificuldades lingüísticas de Deninha. Falava de filosofia e viajava nos sonhos e idéias da menina como ninguém jamais o tinha feito. Isso a encantava profundamente. Foi o suficiente para colocá-lo em posição privilegiada na fila.

Já o militar, usava uma farda que, apesar de não ser da marinha, dava asas à imaginação e aos delírios da menina. Todo dia sonhava desabotoando os botões da tão famosa farda. Ele tinha um charme comparado com o de Richard Gere... Hummm, ok... Foi demais... Mas os botões brilhavam como os olhinhos da moçoila quando o avistavam. Ele era fantástico.

E, por fim, um famoso designer francês com um senso de humor que a fazia esquecer de todos os outros concorrentes. Ela adorava sua companhia.

Todos rendidos aos encantos da pequena brasileirinha. Que situação! Ela nunca tinha se deparado com tamanho assédio! Mas, Gardênia, apesar de sua eloqüência verbal e ótima desenvoltura intelectual, era uma menina muito tímida e recatada. Vinda de uma família religiosa levou consigo princípios evangélicos para o outro lado do Atlântico. Filha única, mimada e super-protegida pela sua família, nunca tinha tido tanta liberdade. Agora, longe de todas as expectativas e pressões de seus familiares e amigos, era a hora certa de deixar seu id sair do fundo do bauzinho, o qual havia reprimido por 23 anos.

Na terra de Beauvoir, sua musa inspiradora, Deninha começou a conhecer o mundo de forma diferente. Resolveu ser, ser de verdade, quem ela sempre quis. Deixou as aparências e os princípios religiosos de lado, que na verdade eram mais da sua família do que dela própria, e começou ouvir sua própria consciência – ou a ausência dela. Pronto... Foi suficiente para deixar emergir a Gardênia perversa, - no sentido freudiano - egoísta e altamente sujeita da suas vontades mais genuínas... Começou a viver, ou pelo menos, ter essa sensação.

Ah, e ela tornou-se amante da clandestinidade... O que torna a estória muito mais interessante do que aparenta.

Por Nathália Della Santa,
Doutora em Perversão e Mecanismos Clandestinos de Sexualidade.
PhD em Sedução Psicológica de Baixo Calão
.


Terça-feira, 29 de Abril de 2008

Delírios eróticos de um púbere


Me chamo Diógenes. Meu melhor amigo é o Cylândio. Moramos no mesmo bairro já faz uns dez anos. Quando cheguei aqui, Cylândio já vivia numa casa simples e de muro baixo. Eu me mudei para uma casa amarela - amarela mesmo - que era rodeada por uma cerquinha de madeira… Amarela.


A mãe do meu grande amigo é linda. Deve ter uns trinta anos, mais ou menos. Já ouvi falar num tal de Balzac, um escritor famoso aí, que fala de mulher de trinta anos. Vou pesquisar na internet para ver se descubro alguma coisa sobre o que esse cara fala porque paciência, paciência mesmo, de ler livro eu não tenho. O pai do meu amigo, e marido da sua linda mãe, é representante de vendas e viaja muito.


Resolvi escrever hoje por um motivo muito sério, um fato que aconteceu comigo há uns dias atrás. Na verdade, eu estou bem orgulhoso do que aconteceu e, ao mesmo tempo, um pouco confuso.


Fui procurar Cylândio na casa dele, terça-feira passada de manhã. Entrei pelo portãozinho que ficava destrancado sempre. Gritei o nome dele uma vez e escutei uma resposta vinda lá dos fundos da casa.


- Entra, Diógenes.


Eu escutava um barulho de água e fui seguindo até lá, no quintal. Quando cheguei, vi Dona Gerlaine no tanque, lavando roupas. Ela estava com um shortinho daqueles que só se usa em casa de tão pequeno e depravado e uma camiseta branca. Aqueles cabelos cacheados curtinhos e saltitantes e sua pele angelical de tão branca contrastavam perfeitamente bem com aquela cena doméstica. Fiquei ali, parado, olhando para Dona Gerlaine, maravilhado. Ver os músculos do braço dela contraíndo-se no vaivém da roupa esfregada contra o tanque me excitou, um tipo de excitação que só tinha sentido quando, uma vez, vi uma mulher pelada na revista do Mago, um amigo nosso, e ela nem era tão bonita assim.Ela não tirou os olhos da roupa e começou a falar:


- Oi, Diógenes. Se estiver procurando o Cylândio, ele não está. Foi para a casa da avó. Só volta de noite.


Agradeci, mas eu não consegui me mover para ir embora. Me mantive ali, apreciando o espetáculo de pernas bem torneadas e fortes que eram ainda mais atrativas quando Dona Gerlaine ficava na ponta dos pés para um apoio melhor na labuta da lavagem das roupas. Ela era um pouco baixinha para a altura o tanque. E esse era um elemento importantíssimo na composição daquela cena.


Percebendo a minha inquietação dentro da minha imobilidade momentânea, Dona Gerlaine parou o movimento das mãos, olhou para mim e disse:


- Bem, Diógenes, só porque o Cylândio não está, não significa que você não possa me fazer um pouco de companhia...


Disse isso com um olhar que, até então, eu desconhecia de Dona Gerlaine. Na hora, sob o impacto de um medo repentino e estranho, inventei que precisava fazer umas coisas em casa. Mas, logo repensei e disse que isso não era urgente, já que ela estava sozinha e podia precisar de alguma ajuda. Ela sorriu enquanto continuava no tanque. Me pediu para pregar um varal que tinha caído, já que precisaria dele quando terminasse de lavar as roupas.


Foi na hora de pendurar as roupas no varal que não contive minha ereção. A camisa branca (e transparente) da Dona Gerlaine estava encharcada de água e, quando ela levantava os braços para alcançar o varal - bendito seja ele – eu conseguia ver, num instante de segundo, aqueles peitos incríveis. Disfarçava com as mãos o efeito que aquela visão causava ao que estava sob meu calção folgado e fino, daqueles que os jogadores usam numa partida de futebol.


Ela já havia percebido, tenho certeza, e como se não bastasse, me pediu uma “mãozinha” para alcançar o varal.


- Você colocou os pregos muito altos, Dizinho. Venha aqui me levantar para eu alcançar melhor.


Bandida! Por que ela não me pediu um banco ou que eu mesmo fizesse o serviço? Só sei que, bandida ou não, fiz o que me pediu sem pestanejar. Segurei na sua cintura fina, por trás, e a suspendi. Depois de um tempo fazendo isso, comecei a apertá-la contra o meu corpo e laçar sua cintura com o braço todo, já que o apoio era melhor – ou, pelo menos, essa foi minha grande desculpa.


Depois de acabada a grande odisséia no quintal, ela disse que me faria um suco. Fomos até a cozinha e comecei a ajudar Dona Gerlaine a cortar um abacaxi. Eu, muito inexperiente nessa tarefa – eu nunca faço nada em casa porque tenho uma mãe que me faz todas as vontades – acabei cortando meu dedo médio, que sangrava muito. Na mesma hora, ela me pegou pelo braço e me levou ao quarto para fazer um curativo.


- Sente aí, Dizinho - disse ela apontando para a cama de casal.


Sentei enquanto ela procurava a caixinha de remédios. Depois, agachou-se na minha frente e pegou minha mão. Já sangrava menos o meu corte quando ela pegou meu dedo e levou-o junto à sua boca.


- Deixe-me dar um beijinho para sarar...


Encostou os lábios no meu dedo bem ternamente, o que me causou algumas reações fisiológicas. Quando percebi, ela passava a língua nele enquanto me olhava fixamente. Fiquei anestesiado por completo quando todo o meu dedo médio estava dentro da sua boca molhada. Só eu sei que sensação foi aquela. Arregalei os olhos e ela me deixou pegar nos seus peitos. Revirei os olhos por uns longos segundos até que ela quebrou o silêncio:


- Tá bom, menino. Você já está melhor. Agora, vá pra casa.


Levantou-se como se nada tivesse acontecido e foi para a sala, assistir televisão. Passei por ela sem saber o que falar e escutei:


- Quando Cylândio chegar, digo que você procurou por ele.

- Sim, senhora. Obrigado.


Naquela noite, tive os sonhos mais incríveis que uma pessoa pode ter.


Menos Cylândio...



(agradecimento especial à Raquel, pela contribuição altamente genial com a música "La madre de Jose" que, diga-se de passagem, foi feita para esse conto...) Pretensiosa, não?

Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

O menino da casa ao lado


Conheci Alberto quando eu tinha 9 anos e ele 7. Ele morava na casa ao lado e tinha o olhar mais safado que eu já vira. Agora que me dou conta disso... Alberto era a prova viva dos pressupostos freudianos sobre sexualidade infantil.

Eu vivia só com minha mãe e avó numa casa espaçosa o suficiente para nós três. Alberto morava com os pais e era o caçula dos três filhos do casal. Vanessa era a do meio e tinha minha idade. Logo que eu me mudei para o bairro, ela tratou logo de me fazer sua amiga. Comecei a freqüentar a casa dos Lima e não era raridade eu almoçar por lá. Brincávamos muito com o castelo da Barbie que ela tinha no quarto. Só havia um problema: Vanessa dividia o cômodo com o caçula, já que o irmão mais velho, de 15 anos, exigia um quarto só para ele. Essa situação me obrigou a conviver com Betinho que, vez por outra, participava das nossas brincadeiras.

Eu e Vanessa tínhamos uma relação tranqüila, sem muitas brigas, o que é incomum quando se trata de duas meninas na nossa idade. Em compensação, Betinho me tirava do sério muito facilmente. Ele tinha alguma coisa que me incomodava. Ninguém entendia o porquê. Ele era uma criança calma, educada e nunca atrapalhou a mim e Vanessa. Fazia todas as nossas vontades e colaborava com tudo o que pedíamos. Não falava muito, mas olhava demais...

Um dia, estávamos eu e Vanessa brincando de médico com uma boneca. Betinho entrou no quarto e perguntou se tinha algum problema dele ser o paciente. Minha amiga adorou a idéia e já mandava ele tirar a camisa para o exame. Eu disse que tudo bem. Betinho deitou no tapetinho do chão e Vanessa colocava um fone de ouvido quebrado para escutar os batimentos cardíacos do paciente, depois, pegou um lápis e pôs debaixo do braço do menino franzino para medir sua temperatura:

- Senhor Boris, o senhor está com uma febre muito alta. O que o senhor está sentindo?

- Estou com dor de amor, doutora.

Enrubesci. De alguma forma, eu sentia que era para mim aquela frase. Tive a certeza quando olhei de soslaio e ele me encarava, deitado no chão. Vanessa levantou-se:

- Enfermeira, vou buscar os instrumentos para operar o paciente. Enquanto isso, pegue esse paninho com água e passe no senhor Boris para a febre baixar.

A porta do quarto fechou-se e lá estava eu, sozinha com o “paciente”. Ele fixava o olhar em mim e não falava nada. Peguei os paninhos e mergulhei na água. Me ajoelhei e comecei a passar no seu peito nu. Meu coração palpitava estranhamente. De repente, ele segurou minha mão e continuou me olhando. Quando olhei para Betinho, ele levantou o tronco e chegou bem perto do meu rosto. A porta bateu. Era Vanessa que, não percebendo nada, trazia uma régua e um lençol.

- Pronto, enfermeira. Vamos abrir o paciente para vermos o que ele tem.

Só tive o impulso de me levantar e sair da casa dos Lima o mais rápido que podia. Nesse dia, fiquei ensaiando na frente do espelho o beijo mais incrível que eu poderia imaginar. Tentava me lembrar dos beijos do cinema e das novelas. À noite, não consegui dormir. Eu devia estar maluca de pensar em beijar um menino de sete anos. Era o fim!

Depois desse dia do médico, continuei a freqüentar a casa dos Lima, mas nunca mais as coisas foram as mesmas. Alberto aproveitava todos os segundos em que ficávamos sozinhos. Certa vez, quando Vanessa estava doente e fui visitá-la, ele me chamou no final do corredor que dava para o quarto deles. Fui, receosa, mas fui. Betinho me puxou para junto dele e, quando menos esperava, passou os braços pelo meu quadril e segurou a minha bunda. Fiquei enlouquecida de raiva e dei-lhe um cascudo. Saí dali, mais uma vez, às pressas.

Passei mais de uma semana sem ir à casa de Vanessa.

No meu aniversário de 10 anos, todos foram à minha casa. Num vacilo meu, enquanto eu ia deixar mais um presente que tinha ganho, Betinho me seguiu e entrou comigo no quarto.

E foi ali que descobri que o beijo não é oco como nas novelas. Meti-lhe a língua e, depois de assustar-se um pouco com minha invenção, logo senti a língua dele também.

Abriram a porta.

- Lucinha!!! O que é isso?!?!?

Nunca vi Betinho correndo tanto como naquele dia.

Minha mãe me proibiu de ir à casa de Vanessa, embora ela pudesse vir à minha.

E eu e Alberto continuamos nossas aventuras amorosas, entre beijinhos ternos escondidos atrás da árvore da praça e pegadas que me deixavam envergonhada, por detrás do muro da minha casa.


Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Os botões reluzentes.


O tilintar dos botões reluzentes dentro da caixinha de madeira projetava imagens na cabeça de Alexandrina. Imaginava-os costurados, um a um, no uniforme de outrem. Desde que isso começou a acontecer, a mocinha nutriu uma obsessão imoral por botões dourados.

Alexandrina veio morar na capital quando completou 16 anos, tinha origem interiorana e vinha de uma família muito humilde. Quando ela ainda morava no interior, era conhecida por participar de obras sociais e ser muito dedicada à família. Quando completou doze anos, já alfabetizava os pequeninos da cidade. Adorava crianças. Era uma menina doce, tranqüila e nunca tinha tido um namorado – sequer sabia o que era beijar um garoto. Sua irmã, Gardênia, era uma depravada e a sua fama de “avançadinha” já corria pela vizinhança. Isso envergonhava muito Alexandrina, que zelava pela “moral e pelos bons costumes”. Gardênia nem ligava...

Quando se mudou para a capital, ficou instalada na casa de uma tia por consideração. Passados dois anos, a moça continuou imaculada e não se corrompeu pelos “maus hábitos” da cidade grande. Logo se envolveu numa ONG para crianças abandonadas. Mas foi exatamente aos 18 anos, que a vida de Alexandrina mudou completamente.

No desfile de 7 de Setembro, a moça resolveu fazer companhia à tia e ir assistir à parada. Foi lá, enquanto aqueles homens fardados e de postura altiva passavam, que Alexandrina viu, pela primeira vez, Cidrido Rodriguez, um costa-riquenho radicado no Brasil há três anos. Ele, cheio de pompas, vestido com seu traje impecavelmente branco e bem passado e um quepe no lugar certo, fez a menina simples do interior ficar completamente bestificada. Cidrido não era um rapaz muito bonito, mas, naquelas circunstâncias, se apresentava como um lorde.

Os botões dourados do seu uniforme de gala brilhavam de acordo com a posição em que o sol batia neles. Esses lapsos de luz que ofuscavam Alexandrina – como quem pega um espelho e aponta para os raios do sol – foram os grandes responsáveis pela deflagração dos sentimentos dela.

O tempo passou e toda a vida do rapaz foi descoberta por Alexandrina que, agora, só tinha tempo para pensar nele. Parou os estudos, o trabalho na ONG e ficou completamente aérea. Depois de perseguir Cidrido todos os dias, - sem que ele percebesse – conversar com a vizinhança e se utilizar de meios mais ilícitos (como fazer uma cópia da chave de sua casa e invadi-la enquanto estivesse trabalhando), Alexandrina sabia quase tudo sobre o rapaz.

Cidrido era da Marinha, tinha 25 anos de idade, morava sozinho e criava dois bichos não muito comuns: uma caranguejeira e uma jararaca. Lógico que outros detalhes foram descobertos, mas não vêm ao caso agora.

Alexandrina passou cerca de um ano nessa saga e nutrindo a paixão obsessiva pelo milica. Não tinha coragem de se apresentar ao rapaz e esperava uma providência divina para que isso acontecesse o mais rápido possível.

Até que, um dia, ao espiar, escondida na rua, a saída de casa de manhãzinha do seu amado, percebeu que não estava fardado e carregava uma mala em cada mão. O coração de Alexandrina bateu mais rápido: será que ele ia embora? Como ela viveria sem ele? Então, logo atrás de Cidrido, saía da casa dele um homem alto, forte e bocejando. Apressou o passo, pegou uma das malas que o milica levava, e deram-se as mãos. Andaram assim até o ponto de táxi mais próximo e desapareceram das vistas da moçoila.

Alexandrina entrou em pânico. Não chorou. Não falou mais.

Voltou para o seu interior e nunca mais saiu do seu estado de choque.

Ela agora colecionava botões reluzentes numa caixinha de madeira, que abria e fechava o dia inteiro.

É... E Alexandrina acreditava que o milica só criava a jararaca...

Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Temente a Deus... e a Ulisses.



Ulisses era muito conhecido na cidadezinha de interior de Santinha-do-Pau-Oco. Sua altura mediana não era o a responsável por sua fama de galã, nem seu físico indefinido. O que chamava mesmo a atenção das moças simples da cidade eram os maliciosos olhos negros de Ulisses e um bigode fininho, bem brega, no jeitinho mexicano-de-subúrbio de ser.

Não quero me deter, aqui, na análise do nível de exigência das mulheres de Santinha-do-Pau-Oco, até porque,hoje, parafraseando uma pessoa de minha convivência, "tudo é relativo". Mas, vale lembrar que as moças da cidade já nasciam pensando em casamento e iam à missa somente para pedir a Deus que lhes arranje um bom partido, de posses e, de preferência, se não for pedir demais, um homem bem aparentado.
Pelo fato de Santinha-do-Pau-Oco ter a maioria da população masculina trabalhando nas lavoras do Coronel Rendrix (uma homenagem ao Hendrix original), - resumindo, ganhando pouquíssimo, vestidos como mendigos sem estilo e com um português deplorável- Ulisses, com seu fusca branco, roupas despojadas vindas da cidade grande, frases de galanteio decoradas e cabelos programadamente desgrenhados, fazia um sucesso estrondoso com o público feminino de lá.

Marianinha era noviça e tinha 16 anos, quinze a menos que Ulisses. Sua mãe, uma beata que tinha sido abandonada pelo pai da menina quando esta tinha acabado de nascer, planejava para a filha uma carreira religiosa rumo à beatificação pelo Papa. Marianinha ia bem com suas obrigações religiosas e seu desejo de satisfazer o desejo da mãe - ou a falta de opção para escolher outro caminho - era grande. Até ela conhecer Ulisses...


O viu, uma vez, durante a caminhada matinal que fazia com suas colegas noviças. Essas, sim - as outras noviças - eram o que se pode chamar de taradas. Mas o aparecimento do rapaz de bigodinhos finos fez com que Marianinha tivesse sonhos e pensamentos pecaminosos. Ulisses, como bom malandro, havia reparado na noviça magrinha e pequena com tez de marfim, olhos castanhos e boca rosa. Essa seria sua mais nova investida.

Até que, um dia, numa tardezinha escura e chuvosa, Marianinha precisou sair para comprar alguns mantimentos que as freiras haviam pedido. Com um guarda-chuva aberto, lá estava a menina rumo ao seu destino. Enquanto ela andava pela rua vazia de gente, Ulisses preparava seu bote certeiro assim que ela pegasse a ruazinha de terra batida. E foi lá mesmo que o galã mexicano apertou Marianinha contra o seu corpo e lhe deu o primeiro - e fatal - beijo. A noviça não resistiu e, depois de segundos sem ar, enfartou ali mesmo, nos braços do rapaz. Assustado e sem saber o que fazer, Ulisses deixou a noviça, caída no chão, debaixo da chuva forte e do céu cinza, e desapareceu de Santinha-do-Pau-Oco.

No começo da noite foi que descobriram o corpo da menina morta, com o hábito todo sujo de lama e o guarda-chuva aberto.

"Pobrezinha", todos pensaram, era "fraca de saúde" e Deus a tinha chamado antes do tempo porque precisava de alguém como Marianinha para sua secretária.

-Ela escutou o chamado de Deus! Veja como morreu feliz, sorrindo!

Não sabiam eles da natureza do sorriso...

Terça-feira, 15 de Abril de 2008

O culpado


O passaporte foi o culpado por tudo. Ela ainda não tinha chegado a essa conclusão, pelo menos não naquele dia. Isso, porque tinha os olhos encobertos pelas mãos daquele outro.

Alguém já havia dito que coisas iriam acontecer. Ela, descrente, - ou apenas dissimulando - sorria e mudava logo de assunto. Falava do dono das mãos que lhe tapavam os olhos.

O passaporte foi o grandessíssimo culpado por tudo, porque lá estava o nome dela impresso com letras insistentes: Nancy Deneuve Satrapi. Os olhos de lince do rapaz ao lado foram seduzidos pelo objeto e, depois de lido o necessário, utilizou-se de meios "lícitos" para a descoberta da identidade daquela moça séria, vestida com uma elegância discreta e de sobrenome italiano, digo, francês.


Resolver burocracias, definitivamente, não era o esporte preferido de Nancy. Acho que o de ninguém, na verdade, embora valha ressaltar que, no caso dela, a questão não era "não gostar", era sentir ojeriza. Só fez isso naquela ocasião porque uma força maior chamada "cruzeiro pelas Ilhas Gregas" necessitava dessa resolução. E lá estava ela, impaciente , esperando sua vez de ser atendida. Enquanto ela xingava, mentalmente, os burocratas, o rapaz transformava o próprio tédio em uma observação interessante e minunciosa da moçoila.


Claro que Nancy percebera a presença dele. Na verdade, desde que ela havia entrado na saleta da imigração. Ele era um "belo exemplar da espécime", foi o que disse um dia.
Depois de resolvida a papelada, ela foi-se embora. Tentou concentrar-se no trânsito, na tabela que fazia no computador, na história que uma amiga contava, animada. Não conseguiu. Lembrava do rapaz do aeroporto. Só quando "aquele das mãos que lhe tapavam os olhos" chegou, foi que Nancy pareceu esquecer o ocorrido. Ela consegue dissimular muito bem...

Agora, Nancy me envia notícias e me diz: "o passaporte foi o culpado por tudo".


Ela não precisou dizer mais nada. Eu sabia de sua origem Machadiana. Ela via pelas frestas que os dedos - do "dono da mão"- deixavam. Ela enxergou tudo e mais um pouco.

Não negas o nome, Capitu.

Segunda-feira, 14 de Abril de 2008


Existem travas que impedem a fluidez dos pensamentos. Disso, não restam dúvidas. O meu único questionamento a respeito é até quando essas travas continuarão agindo ao seu bel-prazer. Hoje, escrevo aqui por questão de exercício, como um viciado por academia que deve manter seu físico musculoso levantando pesos e mais pesos, automaticamente.

Me dá prazer, sim, em escrever o que quer que seja, mas essa idéia de blog me impede de escrever toda e qualquer coisa. Se eu tivesse o prestígio de uma Sylvia Plath, me daria ao luxo de escrever um diário com as palavras que quisesse, com os temas que quisesse, sem me preocupar se seria ou não interessante a quem está lendo porque, no final das contas, seria considerado interessante.


Penso em pagar um terapeuta só para que ele leia meus escritos. Acho que não pediria uma análise deles. Era só para sentir-me acompanhada, de alguma forma, por alguém. Depois, se meu caso fosse tão interessante como o de uma Anaïs Nin, ele publicaria minha obra postumamente. Então, tenho que achar alguém mais novo que eu - para que morra depois- e que já seja terapeuta...

É... Devo esperar mais uns anos.


Enquanto isso, forço minha cabeça para procurar coisas que interessem, em algum aspecto, aos que lêem. O resto - a parte mais obscura e não-comercial, pela falta de itens que agradem ao público - divido entre os mais próximos, entre os que estão mais próximos a mim. Mas escrevo à mão, que é para sentir a dor nas articulações dos meus dedos enquanto aperto a caneta contra o papel.

Um pequeno infinito que traz dentro de si mais infinitos...

Sexta-feira, 28 de Março de 2008


Há dias em que não consigo contar estórias alheias, porque estou demasiado sorvida pelo meu mundo. Há dias em que escrever sobre banalidades me relaxa a cabeça, me faz tirar os dois pés da realidade. Mas, há dias em que meu egoísmo não me deixa verter pensamento nenhum a qualquer que seja o personagem, que não eu; a nenhum cenário, que não o que eu esteja envolvida; a nenhum sentimento, que não aquele que sinto profundissimamente.

Teria coisas a dizer sobre imagens que me percorrem as idéias. Imagens simples e lindas, que passam despercebidas por muitos. Mas, apesar de tê-las agora em mente, não consigo fazê-las senhoras do que escrevo. O que teima em me escorrer pelos olhos e sentidos são as coisas que me fazem sentir colérica, triste, amarga.

É duro ver-se amarga no espelho porque a vida nos endureceu. É duro ver que o ciclo continua quando você implora por um tempo parada, para tentar sair da tontura que se está o tempo todo. É duro ficar séria quando a piada mais inteligente acabou de ser proferida.


Há o cansaço de tudo. O cansaço de agüentar dias inférteis, o cansaço que sobrepuja a vontade de ser sempre outro. Ser sempre outro é necessário, mas cansa. Cansa, ver a nossa tentativa humana de parecermos menos idiotas, mais cultos, mais certos. Cansa, saber de arte e discutir arte. Cansa, escutar teorias cuspidas, frases copiadas e críticas clichês. É muito mais cansativo criticar que ser criticado. Muito mais cansativo copiar que ser copiado. É muito cansativo.
A gente se cansa demais em discussões estéreis e de palavras difíceis.

A gente sofre demais por coisas bobas. A gente sorri demais... ou chora demais... A gente interpreta muito mal e achamos que somos os melhores protagonistas de um bom filme, quando, no máximo, somos figurantes mal vestidos de uma vida que não nos pertence.


Somos egoístas por termos um umbigo presunçoso demais. Somos alienados por estarmos sempre satisfeitos com o que somos ou o que sabemos.

Saber disso, faz com que o fardo de ser humana, de me sentir humana, me pese sobre as costas. E me coíba de quaisquer outras frases ou temas, que não a respeito desse sentimento ignóbil de não ter como escapar à regra.

Quinta-feira, 27 de Março de 2008

Sem ponteiros


Chego, todos os dias, à conclusão de que preciso de mais tempo. Preciso de mais tempo não é para cumprir todas as minhas responsabilidades. O tempo que tenho, geralmente, dá para fazer isso . Mas, só isso...

Mais horas no dia para ler o que se planeja há tanto tempo, para poder sentir uma música ao invés de somente escutá-la. Mais horas para escrever bobagens, para escrever um livro, para escrever cartas de amor e revolta, para poder dizer que ama e que odeia sem frases feitas e rápidas. Mais horas, muitas horas a mais...

Preciso viver, pelo menos, cem anos a mais do que esperam que eu viva, e só deixar meu corpo sucumbir à velhice depois que eu tenha conseguido fazer o que precisava ser feito. Não posso pular meus planos, minhas vontades. Não posso deixar que cortem meus momentos... Eu preciso vivê-los até que se esgotem em mim todos os motivos. Tenho uma tendência inegável a me sentir obsoleta e profundamente frustrada quando não sou fiel aos meus quereres, quando sou impossibilitada de escolher, de errar, de tentar.

Preciso de mais tempo para amadurecer até o último fio de cabelo. Para me sentir esgotada com a vida que levo, mas, satisfeita. Preciso de mais tempo para conhecer as pessoas, para elogiá-las, para criticá-las, para amá-las ou aprender a desamá-las.


Preciso de mais tempo para assistir três vezes o mesmo filme, para olhá-lo de três formas diferentes. Para arrumar motivos para torcer pelo mocinho e pelo vilão. Para encontrar no coadjuvante a história principal.


Preciso de mais tempo para ler, ouvir, falar, sair, dormir, sonhar, abraçar, beijar, bater, imaginar, ver, lembrar, defender, atacar, teimar.

Preciso de mais tempo para amar, odiar, sentir medo, saudade e compaixão, vingar, chorar, sorrir, calar, tocar.


Preciso de mais tempo para não precisar escolher... E fazer tudo!
Preciso de mais tempo para poder SER...

Preciso SER.

Segunda-feira, 24 de Março de 2008

O homem da casinha distante


Era um homem bruto, estereotipando, daquele tipo que se acha em um interior distante da capital cuidando de 'coisas da terra' e morando em uma casinha sem água encanada. Soa um pouco grosseira essa referência, mas, pelo menos, não me custa usar muito a cabeça na descrição do tal homem, nem forçar demais a imaginação de quem lê. Por questões práticas - a fim de vencer a preguiça dos leitores que costumam passar por aqui - é melhor começar falando do 'bruto' da maneira que comecei, mesmo. Embora eu deva admitir que, 'morando numa casinha sem água encanada' pode ter sido um exagero.

Enfim, não sei nada desse homem, exceto as impressões e suposições que criei durante e depois que o vi. Eu passei por ele como uma mulher deficiente de suas faculdades mentais e sanidade fugindo da camisa de força e da enfermeira gordinha pronta para injetar o líquido da seringa - essa é a pressa com que todo mundo anda hoje em dia pelas ruas da cidade, seja para não ser assaltado em qualquer esquina, como para não ser visto por aquela tia desagradável, que faz da sua vida a fofoca mais quente da família. Então, eu passei...

Foi, então, que vi na beira da estrada que corta a capital, um caminhão parado. Pensei logo que haveria de estar quebrado, ou rendido por um quadrilha assassina, ou abandonado ali depois do roubo, ou no meio de uma transação ilícita. Pensei nas possibilidades mais possíveis: nas tragédias mais trágicas...

Olhei a placa: algum interior do Estado do qual não me recordo o nome.
A porta do caminhão entreaberta e o alerta ligado. Só se via caminhão, sua frase 'filosófica' e algumas caixas, parecia-me, com verduras. Talvez o motorista tivesse parado por livre e espontânea vontade - e não sob a mira de três-oitões de bandidos - para urinar por perto. Homem tem essa mania de aproveitar tal facilidade anatômica para fazer, de qualquer lugar, o seu banheiro particular. Não se enxerga, ao certo, a linha que divisa esse ato quanto a ser pura e genuína necessidade fisiológica ou um impulso um tanto quanto narcísico. Fora a questão cultural - brasileira, mais especificamente - onde 'macho mija em pé e na hora que quer'. Essa história de 'educação' é coisa de boiola. Bem, mas isso não vem ao caso agora.

A questão é: procurei o meliante que, provavelmente, estaria urinando na beira da estrada. Estava pronta para direcionar bons xingamentos mentais a ele, até que o encontrei, parado, em pé, e com os braços esticados, atrás do caminhão.

Mas o que ele segurava eram flores do campo, que colhia, uma a uma, e ia formando um buquê rústico e cuidadosamente arrumado.
As mãos ásperas do 'homem bruto' trabalhavam na escolha das flores e na junção de todas as cores que lhe pareciam harmônicas.

O homem do interior distante havia parado seu caminhão, durante a dura viagem de trabalho, para colher as flores mais singelas da estrada. Ele as colheu sabendo que, talvez, nem resistissem, bonitas como estavam, à viagem de volta para casa... Até que chegassem aos olhos da futura dona do buquê. Como chegariam, pouco importava. O que lhe importava era aquele momento, que ele escolheu para dedicar seus pensamentos a alguém que lhe fazia alguma falta.

E eu passei... Muda, envergonhada e sem saber o que pensar.
Até que, lembrei... Deveria passar como uma louca que foge da enfermeira gordinha- não sei se por necessidade, ou por fuga.

E pensar que tudo isso não durou, sequer, quatro segundos...

Terça-feira, 18 de Março de 2008

It's okay !

(foto aos 5 anos de idade)


Ela tinha dez anos, o que me deixa na dúvida quanto a usar o "ela" para me referir àquela coisinha miúda de olhos de jabuticaba. Não tinha características físicas visíveis, ainda, que a diferenciasse de um "ele". Portanto, para não permanecer nesse impasse quase que filosófico, usarei o It como o seu nome.

It era um exemplar raro de brancura. Era mais que branca e um pouco menos que albina. Tinha cachinhos loiros, um loiro tão claro quanto o de Donatella, a Versace. Era o sonho de todas as Its pós-modernas da sua idade, e de suas mães peruas, ter um cabelo com uma cor tão Hollywoodiana. Mas It nem ligava pro lindo cabelo que tinha, porque esse era um tema que achava 'supérfluo'.

Para falar a verdade, It não fazia parte do contexto que era esperado. Conhecia toda vida e obra de Shakespeare e não tinha a mínima paciência para quadrinhos da Turma da Mônica. It costumava intervir nas conversas dos adultos e conseguia transformar qualquer uma delas, geralmente com assuntos estéreis, em verdadeiros dilemas existenciais. A família a considerava um prodígio.


Até que, um dia, seus pais quiseram dar de presente à criaturinha uma viagem à Disney. It se negou a ir. Disse que se 'enojava com o imperialismo norte-americano e que não se interessava, nem um pouco, em conhecer o mundo ridículo do Mickey, que só incentivava os turistas a comprarem souvenirs inúteis, financiando, assim, uma mão-de-obra escrava mantida na China para produção desses produtos.' (ufa) Essas foram as palavras da própria It, que queria mesmo, era conhecer a Etiópia:

- A Etiópia precisa de mim, mamãe.

Finalmente, os pais de It, estupefatos com todo o discurso ali proferido, perceberam que a criaturinha precisava de uma ajuda profissional: um psicólogo. Renegar uma viagem à Disney foi o cúmulo do absurdo.

Doutor Frustreco passou um ano acompanhando It e seu 'desnivelamento-intelectual-patológico-agudíssimo'. O normal seria It brincar de boneca com coleguinhas, gostar de batata-frita, chorar com as broncas recebidas e rir assistindo ao Pica-Pau. E não ficar inventando novas filosofias revolucionárias, exigir pratos balanceados, questionar os pais usando Platão ou sorrir com o sarcasmo na literatura russa.

- It sofre de uma síndrome não-identificada. Creio ser o primeiro caso no mundo. Infelizmente, creio não poder ajudá-los. Desculpem.

Depois do veredicto do Doutor Frustreco, os pais saíram do consultório desolados. A mãe, quando chegou em casa, foi ao quarto de It, que lia um exemplar grosso de título 'O Ser e o Nada". Sentou-se à beira da cama, deu um beijo na filha e perguntou baixinho - mais em tom de lamento do que em busca de uma resposta:

- Ai, meu Deus... Por que você não é como as outras crianças?

- Mamãe, dependendo do referencial, isso pode ser bom ou ruim. Tudo é relativo.


O tempo se passou, It cresceu e virou Ela, agora com cabelos vermelhos cor-de-fogo, óculos de grau, um marido dedicado esperando-a em casa e um casal de gêmeos.

Psicóloga bem-sucedida e acostumada a lidar com Its reacionárias precoces.

Segunda-feira, 17 de Março de 2008

Álbum de figurinhas


- Ai que bonitinho! Eu também quero!

- Espera um pouco. Deixa eu acabar aqui.

- Me passa as repetidas.

- Tá, tá. Espera.


("Com apenas três tabelas resolvemos qualquer problema relacionado a isso"...)


- Pronto. Toma aí!

- Aiiii! Deixa eu ver!! Que bonitinho! Me dá aí.


(joga-se o objeto)

(tempinho)


- Ai, me devolve, vai! Você fica vendo essa revista aí... Então, quero de volta!
- Espera! Só um pouuinho...

- Hum.

("Quanto dá esse valor dividido por 0,078? Alguém trouxe uma calculadora? Gente, é muito importante que tragam. Uma simples, mesmo"...)


(criatura fazendo a colagem)

- Cristo!!!!! Que sem estética, minha filha! Que falta de senso!!!
- ME DEIXA!

- Não, por favor, né? Bizarras essas posições. Troço sem pé nem cabeça.

- O que é que tem? O caderno é meu!


(uma terceira e quarta pessoas defendendo a incrível inabilidade e falta noção estética da outra: "Deixa, menina! Você está muito chata!")


Depois de um tempo apreciando a própria derrota artística como se fosse um Rembrandt, retorna à outra o que lhe pertence. Depois de um tempo insistindo em olhar o que foi feito e sob a constante ladainha crítica, ela ri da própria ridicularidade. Uma caixinha de riso se abre e custa a parar. É maximizada após duas quase-quedas das outras.

Saem, uma a uma, como quem não consegue sustentar o corpo depois de severas contrações abdominais, bochechas dormentes e olhos lacrimejando.

Saem, uma a uma, para se recomporem.

Na verdade, uma fuga dos números, que não eram os das figurinhas.


E a estética continua deplorável...

Quarta-feira, 12 de Março de 2008

Cigarettes and more


- Parece interessante tudo que cheira a excêntrico.

Essa frase bateu como o badalar de um sino. Saiu dali pensando nela. Atravessou a rua com a displicência de um cão velho e surdo. Tinha escolhido, horas antes um prato excêntrico para comer, tinha escrito coisas excêntricas àquela outra, corrido pelo corredor de maneira excêtrica. Enxergado excentricidade nas palavras cotidianas e rasura em frases bem estruturadas.

- Parece interessante tudo que cheira a excêntrico.

Ela parecia uma louca que pisa sobre nuvens densas e pedras quentes, fumaçantes. Ela tem os olhos perdidos como os de um cego procurando enxergar a paisagem. Ela procurava um cigarro dentro da bolsa desarrumada, mas resolveu apanhar o que estava no asfalto, jogado por outrem, quase se apagando. Deu os dois últimos tragos que restavam e voltou a jogá-lo um metro à frente.

-Parece interessante tudo que cheira a excêntrico.

Ele chegou andando, em passos apressados, com o quadriculado gasto da sua calça. Parou de repente, com o olhar fixo para os pés dela. Sabia que tinha encontrado os sapatos com que sonhara na noite anterior. Eram eles! Tinha certeza! Mal conseguia subir sua visão centímetros acima. Tirou um cigarro da mochila. Deu a ela sem proferir uma só palavra.
Ela não entendeu absolutamente nada, mas aceitou. Como ele poderia saber que precisava de um? Depois de um breve silêncio:

- Sonhei com seus sapatos. Eles tinham vida. E, quando eu passava, me pediam um cigarro. Engraçado, né? Parece interessante tudo que cheira a excêntrico.

Terça-feira, 11 de Março de 2008

Anabela e seu zoológico



Anabela era uma recente balzaquiana, de rosto impassível aos anos que chegavam e, tão rápido, iam embora. Morava só, com seu papagaio, Boris, e seus dois peixinhos dourados. Boris falava muito, o tempo todo, como produto de um pós-modernismo de loucos. Quanto aos peixinhos, Anabela não sabia se eram fêmeas, machos ou um casal e, por questões práticas, resolveu primeiro escolher o gênero para poder colocar-lhes nomes. Preferiu acreditar que eram fêmeas e logo encontrou duas graças: Guilhermina e Narlosa.

A casa nunca ficava calma. Isso, porque Boris oscilava entre suas crises neuróticas e histéricas batendo as asas, incontrolavelmente, e falando/gritando pelos cotovelos - ou seja lá qual for a expressão mais adequada para caracterizar um papagaio que fala muito e não tem cotovelos. Guilhermina e Narlosa eram, aparentemente, tranqüilas. Fisicamente muito diferentes, Narlosa era "uma peixinha" dourada escura, pequenina e com nadadeiras grandes, tão grandes que Anabela resolveu cortá-las à tesoura cega. Guilhermina, a pobrezinha, era de um dourado mais claro e tinha a cabeça desproporcionalmente maior que o corpo franzino e incapaz. De vez em quando, por não conseguir equilibrar o peso da cabeça, Guilhermina bailava em uns nados estranhos, de ponta à cabeça ou como se estivesse bêbada. Era o motivo de deboche de todos os que a viam rodopiar.

Anabela costumava observar seus bichinhos quando tinha tempo para isso. Boris era mestre em tirar a paciência dela, mas muito mais hábil para agradá-la. Era a relação de amor e ódio mais incrível que já havia acontecido entre bicho e gente, não se sabe se porque Anabela era mais “bicho” que as pessoas comuns, ou se Boris era mais “gente” que os papagaios comuns. Tentar partir desse pressuposto – de ser mais ou menos “bicho” ou “gente” - é uma tentativa de confirmar o paradigma de que uma relação de amor e ódio genuína só existe quando os sujeitos envolvidos pertencem à mesma espécie. Pelo menos é o que suponho... (Até me lembrar da relação homem-máquina - o que faz desabar toda minha brilhante teoria em tempo recorde, na mesma linha em que ela foi pensada.)

Já com as peixinhas, Anabela não tinha muitos problemas. Comida três vezes ao dia no aquário - uma quantidade pequena - visto que elas não tinham senso crítico do quanto comer. Fora isso, a balzaquiana nunca descuidava da troca da água. Guilhermina e Narlosa eram completamente dependentes disso.

Até que, um dia, algo aconteceu. Apareceram umas larvinhas que nadavam livremente no aquário. Anabela tinha errado... Uma das peixinhas não era “inha”, mas um “ão” reprodutor que emprenhou a outra. Como ela não teria coragem de jogar pela descarga esses serezinhos vivos, resolveu separar o “casal” dos pequenos peixinhos, que mais pareciam vírgulas, pondo-nos em um outro aquário. Depois, querendo decretar o fim de possíveis novas reproduções, Anabela separou as “peixinhas”, deixando-as isoladas. Pronto. Agora não haveria mais surpresas.

E o impossível acontece. Numa manhã de domingo, enquanto em um dos aquários os filhotes agora estão crescidos, nos outros dois estão Guilhermina e Narlosa, cada qual com sua coleção nova de filhotes. Anabela enganara-se novamente. Eram, realmente, duas fêmeas. Duas fêmeas-alfa que não precisavam de um macho, sequer, para reproduzir. Voilà! Uma revolução social e sexual no mundo animal!

Depois disso, não se sabe exatamente o porquê, Boris entrou numa crise depressiva profunda e nunca mais proferiu uma palavra.

Depois disso, Anabela tomou gosto por criar fêmeas-alfa.

Depois disso, Guilhermina e Narlosa escreveram um livro e fizeram uma revolução.

E nunca mais debocharam do nado de Guilhermina...

Nocaute que nada! Contagem de pontos...


- Sim, mas, de que horas, então?
- Dez e meia tá bom?
- Não... Acho tarde... Melhor às nove e meia.
- Nove e meia?? Muito cedo. Dez e meia é melhor.
- Mas eu queria chegar antes pra sentar na frente e no meio.
- Mas eu queria ir pra festa hoje à noite e poder acordar mais tarde
amanhã. E eu já marquei nossos lugares lá.

- Ah, não... 'Os lugares estão marcados'... Isso é o que você diz.
Quando a gente chegar lá, tá tudo
ocupado. Toda vez é isso...
- Eu garanto!
- E desde quando se escreve o que você promete?
- Como é?!
- É! É isso mesmo. E toda essa confusão porque a madame quer ir
à festa hoje.

- Eu não vou deixar de ir à festa só porque você não foi convidada.
E se antes eu estava
meio desanimada pra ir, agora eu vou de todo
jeito pra você aprender que não é todo mundo
que se submete às
suas vontades.

- Você está me acusando de inveja? Eu não tenho inveja de uma
porcaria de festa cheia de gente
desinteressante que não sabe,
sequer, conversar. Pode ir! Vá! Essa sua vontade de ficar

'aparecendo' deve ser uma compensação por sua família nunca
ter te dado atenção. Vai lá e
projeta tudo, vai!
- Ha ha ha! Sei bem... Você é que tem problemas com sua família.
Vive revoltada com todo
mundo porque ninguém é do jeito que
você quer. Vive assim só porque é a 'Macunaíma' da
família...
ha ha ha ha! Você é uma bela de uma farsa.

- Se eu fosse você, ficava calada... Antes que eu comece a falar
umas verdades. A histérica da sua
mãe só soube te comprar
sapatos. Mimada.

- Cala a boca! Não vou te pegar mais em canto nenhum.
- Eu não quero mais favor nenhum seu! Engula!
- Melhor assim!

... (silêncio ensurdecedor)...

- Você deveria ser menos egoísta.
- E você deveria ser mais flexível.
- Egoísmo e inflexibilidade são quase a mesma coisa, sua burra.
- Eu sei! Mas eu não quis repetir suas palavras. Mas, já que você
prefere ser chamada de egoísta...

- Eu não prefiro nada.

...(silêncio mais breve)...

- Sim, mas, de que horas, então?
- Dez e meia?
- Não, acho tarde... Melhor às nove e meia.
- Nove e meia é muito cedo. Dez e quinze?
- Nove e quarenta e cinco?
- Tá bom, então. Dez horas eu passo e te pego.

Segunda-feira, 10 de Março de 2008

Ao dia de sol frio


Me reclamava da falta de felicidade dentro da felicidade. Como poderia estar infeliz quando tudo ia bem? Quando escutei essa pergunta, ela não me pareceu tão paradoxal como outras pessoas julgariam. Ali estava, na minha frente, uma espécime pequena de cabelos negros e olhos atentos que, naqueles minutos, não estavam tão atentos assim. Eles permaneciam perdidos, como quando se pensa no futuro.

Ela me contava as alegrias, as mudanças para melhor, a vida que corria tranqüila no seu ciclo natural. Talvez eu tenha pecado em não dizer que o ciclo sempre natural é um ciclo vicioso. Mas disse isso com outras palavras, com outras situações mais inteligíveis, com resoluções mais práticas. Esqueci de dizer que o prático quase nunca é o necessário, porque o necessário não é tão pouco como imaginam por aí e nem suficiente por si só. Claro que eu precisava saber o que ela almejava para eu poder falar-lhe algo mais consistente, algo que, realmente, funcionasse - ou que eu me enganasse pensando poder funcionar. Mas ela nem sabia o que esperar de si mesma...

E eu fiquei ali, com as mãos apóiadas no chão frio... Com a coluna um pouco mais arqueada... Diante da constatação brutal de que o meu papel estava fadado a ser estéril...

Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

A astúcia de Madame Ç


Eu escutava uma história bizarra, dessas de carnavais passados. Não conhecia as pessoas que contavam o fato e pelo menos duas delas pareciam conhecer a história nos seus mais tênues detalhes.

Falavam de uma mulher de meia-idade e, para ser sincera, nem me lembro o nome da criatura dantesca, segundo os que a descreviam. Tudo bem que não usaram exatamente a palavra "dantesca". Para se ter uma idéia da torpeza, é de cunho bem eufêmico de minha parte usar Alighieri para me referir aos adjetivos que ouvi. Algumas expressões impublicáveis foram proferidas naquela noite sobre Madame Ç.

Madame Ç... É assim que a irei chamar, aqui, já que não me lembro da graça da dama. E, mesmo se soubesse, faria questão de deixar uma ruguinha de curiosidade na fronte dos que estão lendo... Lógico! Afinal, sou uma pessoa ética mas, sobretudo, sádica. É quando o útil se une ao agradável.

Pois bem, Madame Ç estava em casa, enquanto a cidade fervia em meio às comemorações carnavalescas. Ela resolveu que só colocaria as fuças na rua depois da quarta-feira de cinzas. Não queria agüentar aquelas "pessoas ensadecidas de uma alegria estranhamente exacerbada" - palavras da própria. E isso se repetia a cada ano...

Ela vivia só, numa casa razoavelmente grande para quem não tem com quem dividir. Casinha de portões brancos e muro altíssimo. A vizinhança conhecia bem Madame Ç, visto que ela morava no mesmo lugar há mais de vinte anos. Tinha se mudado para lá jovem, com um rapaz que aparentava ter mais ou menos sua idade. Mas, fazia um tempo, - o qual a vizinhança não soube medir - notaram que ela estava só. Não se sabia o que fora feito do rapaz, ou o que ele fez consigo mesmo...

Enfim, isso não vem muito ao caso agora... Ou parece não vir...

O que se discutia nessa rodinha de pessoas que me falavam sobre Madame Ç era sua aversão completa ao carnaval. E o engraçado é que esse horror foi construído de repente. Logo que se mudou para a casa, ela era conhecida por ser a maior foliã da rua. Isso, nos três primeiros carnavais.

Madame Ç era bem desprovida de beleza. Um esqueletinho que se sustentava numas pernas de gravetos. Tinha o rosto pálido e magro, olhos grandes azuis e uma boca impressionante de tão pequena. Era uma figura tão incomum que tinha lá seu charme, segundo alguns homens que a conheciam. Não sei se eles são sensíveis o suficiente para perceberem isso, ou se não passam, apenas, de perfeitos tarados sem parâmetros.

O fato é: Madame Ç, esse ano, estava novamente decidida não sair de casa no carnaval. Até que seu telefone tocou. Quem viu a cena não soube dizer o teor da conversa, ou melhor, do monólogo executado por quem estava do outro lado da linha. Só sabe-se da reação blasé de Madame Ç enquanto falavam e ela escutava, atenta.

Desligou o telefone proferindo um mero "OK.Estarei lá.", e pronto. Depois de umas três horas após o telefonema, ela sai de casa em pleno domingo de carnaval, com um vestido vermelho justíssimo, que só acentuava sua magreza quase anoréxica. Olhou para os lados da rua e a atravessou. De um telefone público, em frente à sua casa, fez uma breve ligação e foi embora.

Descobriu-se onde o tal rapaz de anos atrás tinha se metido: no quintal de trás da casa de Madame Ç, enterrado, junto às suas roseiras. Por isso rosas tão bonitas nasciam ali.

Madame Ç foi vista vagando pelas ruas da cidade nos dias de carnaval atrás de um Pierrot baixinho.

A última vez que viram Madame Ç foi na quarta-feira de cinzas, sentada, elegantemente, no meio-fio, à meia-luz e sob meias-verdades.


Sábado, 5 de Janeiro de 2008

A menina das sapatilhas de bolinhas (parte 1)


Há uns dias, vi passar em frente à minha casa uma menina de sapatilhas azuis e bolinhas brancas. Não descobri o nome dela, mas a acompanhei - um eufemismo para não dizer "segui" - por um dia.

Toda manhã, bem cedinho, ela andava a passos lentos e tranqüilos, como se não tivesse pressa de chegar a lugar algum. Logo, eu pensava que ela estava sempre adiantada para chegar ao trabalho ou universidade, caso ainda estudasse.

A menina - outro eufemismo para dar um tom mais literário a essa história - tinha cabelos ruivos que, vez ou outra, era preso por uma fita de cetim branca. Uma coisa não mudava no visual da menina: só usava sapatilhas de bolinhas. Incrivelmente, ela conseguia sempre combiná-las com as roupas que usava, digo, com os vestidos que usava.

Comecei a me perguntar para onde aquela figurinha singular ia, todo santo dia, de manhã cedo. Exceto aos domingos, não deixei de vê-la durante cinco longos meses. Mesma expressão no rosto, mesma calma ao caminhar. Ela não carregava bolsa ou livros, o que me enchia ainda mais de dúvidas sobre o que ela fazia.


Um dia, resolvi seguí-la. Acordei mais cedo que o de costume, tomei um banho e coloquei uma roupa que não chamasse muita atenção. A menina passou na hora exata de sempre. Abri o portão e comecei a minha missão. Não tive dificuldade de acompanhá-la; seus passos pareciam naturalmente sincronizados com os meus. Seguimos pela minha rua até o final e, depois, dobramos à esquerda. Eu podia escutá-la cantarolar canções antigas, alternadas com leves assobios afinados. Pelo menos agora eu sabia de alguma coisa que a menina sabia fazer. Ela tinha algo de musical...

Isso era um bom começo para decifrar a menina da sapatilha de bolinhas...

Depois continuo com as minhas descobertas nessa jornada...

Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

Deixando 2007 para trás...


Enxugando as lágrimas de risos incesantes e de choros pesarosos;
Puxando as tristezas pelos cabelos e jogando fora;
Mas, principalmente, levando para toda a vida os inúmeros momentos bons.
(as coisas boas são intrínsecas ao que é chamado de mau. O mau puro não existe.)

Deixando 2007 dentro da caixinha de música...
And singing "Who's to say where the wind will take you?
Who's to say what it is will break you?
I don't know, which way the wind will blow... "

Sábado, 29 de Dezembro de 2007

O que não se vê


Prometi a alguém que escreveria um breve texto sobre as desventuras de escolher uma cor para romper o ano. Até que me vieram algumas boas idéias, dentro da futilidade que é escrever sobre isso. Mas, agora, enquanto fixava a tela do computador e o teclado silencioso, toda e qualquer motivação esvaeceram-se. Pensei em não escrever mais nada hoje.

Me lembrei o que um outro alguém me falou: "escreva qualquer coisa. Mas não deixe de escrever. Nem que seja um laudo por dia." Um laudo por dia me parece complicado levar à frente. O que posso é tentar alguma coisa, de vez em quando. Pelo menos agora, quando minhas energias já estão dizimadas de todo e qualquer gesto ou palavras minhas.


Hoje, dedico esse meu tempo às mãos. Essas mesmas que batem no teclado com fúria, ininterruptas. Essas que, antes de serem ágeis digitadoras ou tocadoras de uma guitarra, são mãos apaixonadas ou cheias de ódio... Suaves ou extremamente pesadas... São mãos de dedos que se entrelaçam, fáceis, com outros dedos que se entrelaçam, difíceis...

E, se você não pôde vê-las tocando as cordas de uma guitarra, deve ter perdido a energia que circula, mas deve ter ganho a paixão delas em sua plenitude, já que não foi preciso dividí-las com o outro objeto de desejo.

Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

É, Noel... A lista tá grande...

Palavras do próprio: " O negócio tá brabo. Esse ano está complicadíssimo."
É, gente... Acho que exageramos nos pedidos esse ano. O pobre do velhinho está arrancando a barba de tanto estresse. Coitado... Deve ser difícil para alguém tão generoso não estar conseguindo dar conta do recado.

Nosso Noel mandou avisar que muitos dos presentes devem ser esperados até depois do carnaval. As entregas podem atrasar e alguns deles estão dificílimos de ser encontados. Então, um pouco de paciência será bem-vinda. E, se até o dia 20 de janeiro o pacote não chegar, Santa Claus pede desculpas. É porque não deu mesmo.

Ah! O bom velhinho me mandou duas respostas para que eu transmitisse:

Dellinha> "Minha filha, seu pedido já foi realizado. E bem antes do dia 25. Espero que tenha gostado da espécime. Ho ho ho!"

Nati> "Queridinha, você deve usar uma cor quente, levemente púrpura, no final desse ano, para me ajudar no seu pedido. Me esforçarei ao máximo."

É...
Ele não mandou recado para mim...
Mas, tudo bem.
Viva o espírito Natalino.

Sábado, 15 de Dezembro de 2007

Não tão viril...


Já estava cansada do dia. Fomos comer. Já era tarde da noite, mas a fome não tem hora para anunciar sua chegada. Eu pensava que, ali, eu poderia me desfazer dos meus pensamentos e apenas levar uma conversa despretensiosa e, simplesmente, comer. Até que, na mesa de junto, uma presença começa a me incomodar. Eram três mulheres e um velho metido a macho-alfa. Na nossa mesa acontecia, mais ou menos o contrário: eram dois homens e eu, que me eximo do fardo de fêmea-alfa.

Muito sem-querer, eu escuto uma frase que me pregou os ouvidos: "nenhuma mulher nunca me deixou. Sou eu que sempre as deixo." Ela veio acompanhada de uma cara de regojizo, como se aquilo, realmente, fosse o maior de seus méritos. Tive o desprazer de sentar-me quase de frente para o velho e de escutar todas as suas barbaridades. Eu comentava com meus amigos tudo o que escutava. O grau do absurdo era tão grande que a concordância deles comigo foi retumbante, ou, pelo menos, foi isso o que eu quis ver.


Entre uma fatia de pizza e outra, uma frase aparecia. "Eu? Se eu disser quantas namoradas eu já tive, vocês não vão acreditar. Tive mais de sessenta!" A reação das mulheres da mesa era de incômodo e nojo, como a minha, mas, por consideração a alguma coisa que eu ainda não identificara, elas permaneciam ali, caladas e disfarçando qualquer reação negativa àquele homem. Alguém precisava lhe explicar a diferença entre uma namorada e um casinho sexual.


Garçom: "frango com catupiry?". Velho decrépito: "E o meu tipo de mulher? É de Miss pra cima. Não pego mulher fraca, não. Só tive uma frágil, pequena, essas coisas." Meus olhos estavam cada vez mais coléricos. Os meninos se divertiam com a minha indignação e disseram que eu queimava sutiã na década de 70. Eu estava mesmo era querendo enfiar o dedo no nariz do velho e falar poucas e boas.

Um dos meus amigos me perguntou que tipo de relação haveria entre aqueles quatro. Não titubeei e expliquei que a mulher junto do machistinha de merda, uns 25 ou 30 anos mais jovem que ele, era a "namorada" ou seja lá qual designação se dê a uma criatura que se passa por isso. As duas outras eram mais velhas que ela - deveriam ser amigas. Fiz esse raio X sem prova nenhuma. Nada havia acontecido para me dar pistas desse arranjo. Até que a vi pegando o copo dele e bebendo o que havia lá e, depois, enrolando seu braço no braço sexagenário dele.

Eureka! Ela era a "namorada" frágil e pequena que ele havia citado anteriormente. Como ela pôde escutar ser chamada de formiga inútil e sem vontade-própria e ficar com aquela cara de isso-não-foi-comigo? A expressão da moça era tipicamente apaixonada e arrependida por estar apaixonada. Ela não me parecia frágil, me parecia ter um bom coração... e estúpido, também.
Ele tinha os cabelos brancos, usava uns óculos de aro fino e tinha uma barba, cavanhaque, ou algo do tipo. Algum pêlo no rosto seria mais adequado.

Por um instante ele levantou-se e foi ao banheiro. Outra surpresa! Diante daquele discurso dantesco do quão viril ele sempre fora, imaginei, pelo menos, se tratar de uma espécime com, no mínimo, uns 10 centímetros de altura acima da média. Não. Era um exemplar nanico,
a la Sartre, de barriga ridiculamente proeminente e braços tão curtos quanto sua inteligência. Pude ver seu nariz apontando para o céu e seu ar de soberba. Usava uma roupa forçadamente casual: queria parecer algum daqueles modelos da Richards. Pobre velhinho mascarado... Enquanto ele se ausentou da mesa, um silêncio reinou entre as três mulheres. Depois de uns minutos, começaram a falar. Falavam baixo. Não deu para entender do que se tratava.

O homem retorna e tenta ser o centro das atenções novamente. Incrível que elas concedam esse espaço a ele. Incrível como a mocinha, sua namorada, ainda consegue fazer gestos de carinho nele. Incrível que ela tenha conseguido lhe dar um beijo terno depois de agüentá-lo a noite inteira.
Pergunto aos meus amigos como uma situação daquela pode se manter. Um deles mexe os dois dedos - o médio e o polegar - e diz: "só pode ser isso, Geninha." Por coincidência, o homem se ausenta da mesa novamente. Foi pagar a conta. Era o que meu amigo precisava que acontecesse para confirmar sua teoria.

Apesar disso, acho que, infelizmente, o caso não era o velho ter dinheiro ou não. A resposta estava nos olhos da moça. Esses olhos não confirmavam essa hipótese levantada na nossa mesa. A moça gostava mesmo dele. É preciso gostar muito do outro e pouquíssimo de si mesma para tolerar aquelas palavras levianas e histórias de pseudo-glórias com ex-mulheres e ex- namoradas.


Pelo bem da humanidade, eu deveria ter me levantado da mesa e mostrar a ele o quão ridículo era todo aquele discurso de fracassado. Eu escutaria poucas e boas, mas, acredite, ele escutaria muito mais. Eu voltaria para casa com o dever cumprimdo. Minha boa ação do dia.


Foram embora, os quatro, e minha pizza voltou a ter um sabor agradável.

Sonhei com um pobre homem infeliz no fim da vida. E seu sorrisinho cínico... e suas palavras arrotadas.
..

Creio que o velho decrépito veio habitar meu inconsciente essa noite.

Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007

A saga do saco perdido


Papai Noel desapareceu. Engraçado como nesse final de ano muitas pessoas me reclamaram de suas vidas. Eu também tive do que reclamar. Começo a achar que minha atenção seletiva só tenha captado esse tipo de relato. Claro! Se eu quero muito cortar o cabelo curtinho, só vou enxergar na rua as moçoilas de madeixas no queixo. Assim está sendo...

Na verdade, eu acho que Papai Noel esse ano vai tirar uma folga daquelas. Depois que passei a usar um "saco" de lona como mala ao ter virado uma neo-nômade, começo a me preocupar e me pergunto se não roubei por engano o saco do Santa Claus - sem duplo sentido, faz favor. Vai ver eu desequilibrei toda a sistemática do bom velhinho sem me dar conta. E isso está desencadeando um holocausto entre as pessoas que me são próximas.

Terei uma conversa seríssima amanhã com meus amigos. Pedirei desculpas pelo mal-entendido. Direi que Papai Noel me enviou um e-mail lamentando não poder nos presentear esse ano porque seu saco de presentes foi vendido por engano numa loja do shopping para uma menina não identificada e muito mal intencionada na compra. Lógico que não citarei meu nome. Seria queimada na fogueira - como meu alter-ego Joana D'arc - por ter sido responsável de roubar todas as últimas esperanças de reversão de mazelas.


É... Melhor dizer que o bom velhinho não entrará pela chaminé esse ano.


Ele estará em terapia intensiva por conta de um estresse pós-traumático depois de ter perdido seu saco... (seu saco mágico de presentes, né?)

Sábado, 8 de Dezembro de 2007

Aux armes citoyens! Formez vos bataillons!


Desde os meus primeiros dentes nascidos.
Desde os meus cachinhos preso com borboletinhas vermelhas.
E mesmo depois de virar gente.
"Marchons, marchons"

Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

Revival ! (tudo se REpete...)


Uma onda melancólica estacionou em mim durante esses dias. Tirei essas últimas semanas para REvirar o baú de músicas antigas. Para falar a verdade, músicas nem tão velhas assim. Música é atemporal, todo mundo sabe. Mas todo mundo REclama quando escuta aquele teclado feioso
bem anos 80. Então, dessa vez, me contentei com os anos 90. E a saída que encontrei para poder RE-escutar as músicas anteriores aos 90, e sem o incoveniente do tecladinho infantil, foi selecionar as REgravações dos clássicos por gente mais atual. Resultado: vozinha fraca de Paula Toller cantando Gilberto Gil, e coisas do gênero. Meu limiar anda muito baixo. Então, qualquer timbre suave e, pelo menos, afinadinho, está me agradando.

Estou REcurtindo músicas que marcaram meus 15, 16 anos - aquela época em que qualquer música de amor parecia ser feita para sua vida. Estou REvivendo meu
debut. Gravei um cd para uma amiga que gosta de música nacional. Escolhi as que estou escutando esses dias. O nome do disco deveria ser "Canções para um cotovelo que dói ininterruptamente". Desisti. Esse nome não soaria muito comercial. Ou, sabe lá, ela escuta com ouvidos diferentes do meu, o que eu acho querer abusar demais da boa vontade, do bom-humor e do positivismo alheio. Até um cotovelo intacto sentiria uma pontadinha. Não que as letras sejam poéticas demais. Elas são diretas demais, fáceis de assimilar, e isso as torna profundas. Profundidade não está ligada somente à REbuscamento lingüístico. Dizer um "eu morreria por você" bem extremista surte muito efeito e não deixa de ter poesia.

Estou REcriando meu
habitat musical de 5 anos atrás. Sorte minha não me envergonhar do que sempre escutei.. As canções de amor são breguinhas, mas são bonitas mesmo quando você deixa de acreditar em algumas delas. É bom REvelar, sempre que possível, a si mesma, esse lado romântico. Nem que seja nas curvas da estrada de Santos tentando esquecer um amor que se teve e que se viu pelo espeho, na distância, se perder...

E viva o amor romântico do mundo paralelo...



Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Cuore, coeur, heart, corazón... Tudo igual.


Uma bilheteria de cinema tem uma dinâmica interessante para se acompanhar. Quando a bilheteria é para filmes não tão comerciais assim, aí é que fica interessante.

Um dia eu falava com algumas amigas sobre homens. Comentávamos sobre as diferenças entre os brasileiros e os europeus e chegamos à brilhante conclusão de que, no geral, os europeus são mais quietos e menos ordinários que os brazucas. A preferência caiu sobre os italianos que, pela fama já criada, têm um sex appeal incomparável e, mesmo sendo sedutores natos, conseguem ter mais caráter do que certos conquistadores baratos que falam português, aqueles homens dos quais as brasileiras se queixam o tempo o todo. Um belo exemplar siciliano, de nariz proeminente e voz forte, levemente grosseira vem, sem dúvida, agradando. Quem conhece ou já conheceu um italiano genuíno deve entender.


Bem, voltando à tópica da bilheteria. Estávamos, eu e uma amiga, na fila para comprar o ingresso do filme. Havia um homem de seus quase sessenta anos, aproximadamente, na nossa frente. Ele estava só. Até que, minutos depois, uma mulher de seus quarenta e cinco caminha pelo corredor, ao longo da fila. Ela tem uma expressão séria, como quem procura alguém. Até que, de repente, os olhos delas se iluminam e um sorriso logo aparece em sua face. Ela vem andando até chegar ao homem que está na nossa frente, lhe dá um abraço apertado e demorado e, depois, beija seus lábios, docemente, sem tirar o sorriso do rosto.

Pensei comigo "mulher é mesmo idiota quando se apaixona...", até eu reparar na reação do homem que, para o meu espanto, era mais do que recíproca. O seu rosto com algumas rugas fundas ficou iluminado em questão se segundos. Em questão de segundos ele rejuvenesceu dez anos, pelo menos. Os dois ficaram ali, juntos e abraçados, na fila. Entre umas palavras e outras, os dois se olhavam profundamente, como dois namorados apaixonadíssimos. Eu podia ver faíscas saindo dos olhos deles quando se encaravam, amor transbordando das suas bocas em cada sorriso e beijo. Eu precisava saber que tipo de relação era aquela. Que havia um sentimento enorme, isso era óbvio.

Perguntei à Renata se ela achava que eles eram casados e há quanto tempo será que estavam juntos. Especulamos por alguns instantes. Prometi a mim mesma que, se aquilo fosse, realmente, um casamento que dera certo, eu voltaria a acreditar no amor em toda e qualquer circunstância. Não era um casal comum. Dava para ver a verdade nos dois e a alegria ao se reencontrarem naquela fila onde todos reclamavam. Era mais que uma simples alegria. Eu senti.


Procurei a aliança no anelar esquerdo dela. Encontrei. Procurei a aliança dele, mas sua mão esquerda ficava sempre dentro do bolso da calça. Tive a ligeira impressão de que ele não usava. Renata me falou que eles poderiam ser amantes. Não creio que aquele era um programa conveniente para manter um relacionamento às escondidas. Parei de especular e mantive o tema hibernando dentro de mim.

Hoje, estou arrependida de não ter falado com a mulher, quando ela estava sozinha, e perguntar sobre o relacionamento dos dois. Eu seria o menos indiscreta possível, tenho certeza. Enfim, resolvi acreditar que aquele era um casamento de sucesso. O maior sucesso que eu já havia visto. A energia mais arrebatadora que já senti numa sintonia fina como aquela.


De repente, o objetivo não é mais um italiano viril e sedutor ou um outro europeu gentil e inteligente: é querer um amor como o daquele casal. Um amor sem pátria, estética ou explicação. Um amor enérgico até mesmo numa fila estagnada de cinema.

Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Relações (parte 1)


Lidar com o abstrato é sempre complicado, mas infinitamente recompensador. Quando somos crianças, reclamamos da matemática pelas suas equações de resultados fantasmagóricos. Mais tarde somos apresentados à física, com suas conclusões mais irreais ainda. Chegamos na Universidade e Platão e seu clã aparecem ditando as ordens. Daí para frente, na vivência acadêmica, mais abstratos vão ficando nossos conceitos. Até nos depararmos com o mais complicado deles: as relações. Duo, trio, quarteto, um grande grupo ou seja lá o que for: complica tudo. A mais difícil das relações é a que mantemos conosco. Nós somos nossa própria fonte de conflito e, como se não bastasse, aparecem terceiros que embaraçam ainda mais nossos próprios nós. Então, fica fácil colocarmos a culpa no outro, acusando-o de "grande despertador de tempestades e tormentas".

Eu acuso os agentes externos das minhas mazelas, sim, mas não me eximo da minha constante estupidez. Se assim fizesse, eu, também, nunca poderia me proclamar agente dos meus êxitos. Mesmo assim, não acho que meus feitos sejam quistos pelos outros. Minhas realizações só satisfazem a mim mesma e não creio que exista alguém que as sintam como eu ou que queiram repetí-las em suas vidas. Seria um risco grande e, hoje, ninguém gosta de correr riscos: até a bunda é colocada no seguro de milhões.

Vou entrar na dança. Resolvi pôr meu cachorro no seguro. Ele é o único desprotegido da história e não se importa com o que a dona faz, contanto que lhe dê comida, água e muito carinho. Essa sim, é uma relação fácil. Quando um complica, o outro dissolve e, de brinde, ainda lhe dá umas lambidas.

Excetuando minha relação com Yoshi, meu fiel companheiro, onde estímulo-resposta funciona muito bem, tudo é abstrato. E o que é abstrato é para ser tentado, errado, refeito, repetido. E o que não é, devemos convertê-lo à abstração.

Quer saber? Começarei a abstrair conjuntamente com Yoshi. Quero criar um ser abstrato que me olhe nos olhos e resmungue algo do tipo: "To be or not to be: that's the question."

Quinta-feira, 22 de Novembro de 2007

Non, je ne regrette rien!


Poucas vezes fui ao cinema para sair tão impressionada, como foi dessa vez. Impressionada. Essa é a palavra. Saí da sala fora de mim e demorou até que eu tomasse consciência da minha consciência. Fui esperando um bom filme. Me levantei, muda, da cadeira pela intensidade da história. Por quão intensa uma vida pode ser. Por quão pouco nós somos pensando sermos suficientemente bons.

O preço que se paga para se transformar em gênio, lenda ou afins, é caro. É caro para quem olha como mero espectador. Até escutarmos um embaraçoso je ne regrette rien. Como é bom não se arrepender. Eu não me arrependo, mas eu vivi tão menos que ela. Será que se eu me chamasse Edith eu teria vivido tanto em tão pouco tempo? Pouco tempo, às vezes, é o necessário. É o necessário para o gênio. Não para o ordinário. Desconheço uma só lenda que tenha sido conformada, que tenha olhos mundanos.

Não sei se sou conformada ou se meus olhos somente captam o espectro comum aos outros... E não acho que tenho tendência à genialidade. Genialidade não é uma tendência. Se nasce gênio ou não. Para quem está fora desse grupo - como eu - resta tentar entender as lendas e tentar fazer da sua vida a mais vívida possível dentro da sua "normalidade".

Piaf poderia ter vivido mais tempo e exagerado menos. Mas não seria Piaf. A vida leva os anos suficientes para deixarmos, aqui, o que temos de melhor e pior. Deixamos nossa essência. Piaf foi um pequeno frasco do melhor perfume francês. Acho difícil encontar uma pessoa que não tenha medo da morte. Mas acho mais difícil ainda alguém que prefira ser uma lavanda de cheiro fulgás em vidro barato, mesmo que cheio. O medo de morrer ou o medo da não-posteridade?

Domingo, 28 de Outubro de 2007

100 metros borboleta


Nadar contra a corrente, ou a favor, é questão de ouvidos. O princípio não é enfrentar a força contrária ou se ajustar à favorável. O princípio resume-se a ter ouvidos apurados para escutar o inaudível: o que se quer. O querer transgride as regras, o senso comum, a acomodação.
Há quem morra afogado na violência da correnteza. Há quem tranforme massa inerte em músculos de aço nesse esforço. Admiro ambos. Admiro por terem escutado e obedecido o que escutaram. Devo admitir que admiro mais quem conseguiu. Não porque não suporte os derrotados - embora seja hipocrisia minha dizer que eles não sejam meio enfadonhos. Mas, porque quem consegue seguir contrário à corrente, não se confunde com possíveis pseudo-idealistas.
E, deixe-me ser sincera de uma vez: não gosto mesmo dos derrotados. Porque eles se deixam derrotar. A mesma ojeriza que sinto pelos hipócritas.
Aos que não entendem: deixem-me nadar.

Domingo, 14 de Outubro de 2007

Linhas à uma amiga


Estaremos juntas por um tempo que não poderá ser medido por anos ou horas. Estaremos juntas por um tempo que as pessoas ainda desconhecem e só passarão a conhecer depois de nós, pioneiras.

Estaremos juntas por um tempo mágico. O tempo que os sonhos duram, que os sorrisos aparecem, que as lágrimas ensinam, que as costas pesam. Tempo além das pobres 24 horas do dia, além do entendimento superficial dos idiotas.


Estaremos juntas até onde os nossos corações continuarem a ser o que são hoje. Teremos os únicos corações infantis da face da Terra. Os únicos que baterão flexíveis, opostos aos rígidos músculos cardíacos dos outros. Porque o nosso coração não pode envelhecer, não pode amadurecer. Amadurecemos nossos meios, amiga, nunca nossos fins.

Que esse tempo seja o mais intenso possível. Eu ainda acredito em infinitos... Mas, acredito muito mais em profundidades.
Um beijo esperançoso por dias melhores, sempre; por alegrias maiores, sempre, e por sentimentos límpidos, sempre.

Sexta-feira, 12 de Outubro de 2007

Cogito, ergo sum


Estou em dias férteis para reflexão e, totalmente, infrutíferos para passá-las ao papel. De que adianta chegar à conclusões, que seriam incompreendidas pelos outros, e escrevê-las? Assinar sua condenação por ser autêntica. O preço que eu pagaria por "publicar" meu EU verdadeiro seria caro demais. Demais para a estrutura frágil que me compõe agora. Não agüentaria um sopro de reprovação, imagine pedradas de fúria.

Cheguei à amarga conclusão de que sou alguém que todos desconhecem. Tenho a imagem que reflito no espelho; sou a imagem que não existe no reflexo. Quem vê meu sorriso de agrado e contentamento, perde meus olhos ousados, medrosos, infratores, cegos. Preferia exercer meu papel ao público como realmente o personagem é. Preferia abrir a boca e soltar palavras que fossem mais fiéis aos meus sentimentos que as de agora. Preferia ser sempre eu, mas às vezes tenho que ser outra.

Filha, namorada, irmã, amiga, aluna, cidadã, mulher... Personagens que correm soltos... Máscaras fantásticas ou pele crua. Optam pelas máscaras belas, de traços finos e cor delicada. A pele crua... Só eu opto por ela. Pele imperfeita, cortada e sã, de pecados e milagres da vida.

Gostaria de ser um "eu" mais fiel a mim mesma.
Gostaria que as pessoas fossem mais fiéis a si próprias.
Gostaria de ver a hipocrisia escorrer pelas galerias da rua escura e desaparecer das minhas sensações olfativas.
Me enoja.

Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

O que precede a calma


Tudo o que eu queria era chegar logo em casa. Aliás, pensando melhor, não queria voltar para casa... Só queria sair dali. Uma atmosfera pesada pairava sobre minha cabeça naquele lugar. Acho que não menos de um raio de um quilômetro do qual eu precisava me afastar. O mais rápido possível!!! Sair desse maldito raio de um quilômetro. Um dia me disseram que eu tinha uma alma muito nua, muito suscetível a se contaminar com a energia do ambiente e das pessoas, seja essa energia boa ou não. Realmente. Acabara de ter a comprovação. Mais uma comprovação dessa teoria que finjo não acreditar porque preferia ser um pouco diferente.

Num impulso, levantei da cadeira rapidamente, peguei minha bolsa, guardei algumas coisas que estavam espalhadas. Guardei minhas lágrimas, meu orgulho e minha resposta rude. Disse “tchau” em sílabas automáticas, um abraço breve e gélido e os olhos que focavam o branco da parede, que fugiam do olhar dele. Merecia um revide, mas eu merecia um resto de dia em paz. Calei. Não respondi. Não fui arredia. Não fui EU por um instante. Só queria sair dali, pensar e voltar a ser eu.

Ao fechar a porta, o quis fazer com força... desisti... Vinguei-me nos botões o elevador. Enquanto descia, andar por andar, minha raiva aumentava, minha mágoa explodia e a cabeça pensava. E pensava mais... O que há de errado em pensar?! É que quanto mais penso, mais me confundo.

Saí em passos largos dali. Já estava na rua tentando me afastar o bendito um quilômetro. Andei, andei... Conversava comigo mesma. Subi para o ônibus e fiquei absorta nas minhas sensações. Trânsito maluco. Havia um ligeiro engarrafamento. Os carros ficavam juntos demais. Dois olhinhos me fitavam, curiosos. Percebi de soslaio. Encarei. A menina abaixou-se, envergonhada. Sinal abriu...

Ironia... Paramos lado a lado mais na frente. Ela me olhava. Encarei-a novamente. Escondeu-se com a rapidez de uma lesma curiosa. Comecei a me interessar pela situação. Quando o trânsito fluía, eu torcia para pararmos próximas mais uma vez.

Oui! De novo! Mas eu não queria que ela se escondesse. Pensei que eu não devia estar com uma cara das melhores. Talvez a estivesse assustando com minha expressão grave. Lembrei que absorvo energias. Nesse momento eu me livrava das negativas que tinha recebido minutos atrás e roubava as boas da menina do carro.

Na terceira vez que paramos, sorri para ela. A menina escondeu o rosto infantil e só deixou os olhinhos pretos para fora, me fitando. Bastou-me.

Depois, não nos encontramos mais no corredor do tráfego. O engarrafamento tinha chegado ao fim. Foi a primeira vez que fiquei chateada com o trânsito livre.

Ah! E eu tinha conseguido escapar do raio de um quilômetro. Na verdade, tinha passado de dez. Meus pensamentos voltaram mais brandos pelos olhos da menininha. Uma menininha de seus três anos capaz de mostrar um outro lado para a menininha maior de idade.

Terça-feira, 9 de Outubro de 2007

Ahí hay gato encerrado...


Hoje não tenho gargalhadas incontroláveis ou lágrimas descompassadas. Hoje, um mal súbito de amor me fez esquecer os percalços, as mágoas, os medos, as ânsias. Hoje, um mal súbito de amor me fez digladiar com os que não sentem, me fez traços leves... Me apagou Kahlo e me pintou Renoir.

Mal súbito que me encharca os dedos de tinta multicor, que faz de minhas digitais um arco-íris em toda sua graça. Mal súbito que me aperta o peito contra si e me faz perder o fôlego. Ando trôpega... Mal súbito, esse mal de amor... Vem e vai com a rapidez de um raio fluorescente. Como adoro seu lampejar...

Hoje, um mal súbito de amor me fez mãos, braços, pernas e tronco. Faltou-me a cabeça decepada pelo fio da navalha do súbito amor. Mas não me faltaram os sentidos... Posso enxergar suas nuances e silhuetas; posso ouvir o solfejar das notas, o suspirar ofegante; posso sentir o olor da nuca, das gotas. Posso beijar os lábios do mal súbito... Lamber a língua do mal súbito... Posso ter o mal súbito quando quero e quando não. Não quero não querer.

Hoje, um mal súbito de amor me fez escrever algumas linhas.
Aproveitei o que pude.
Ele me aparece sempre e eu nego. Não gosto de inflar o ego do mal súbito que me assola nas manhãs de frio e calor.


Hoje, um mal súbito de amor me fez melhor.
Me fez ser.

Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

Offline


Especialmente calada, especialmente pensativa, especialmente melancólica.
Não sei se o que me assola é uma terrível crise pré-maioridade-absoluta, ou se é o pesar de ver que, nesses últimos meses, envelheci uns dez anos. Uns dez anos de um espírito mais cansado que nunca e absorto no seu fantástico mundo de ilusões e fantasias em preto-e-branco.

Torço avidamente para que seja culpa dos 21 porque passa logo. Já a alma, uma vez violentada pelo peso das toneladas que carrega antecipadamente, nunca volta a ser a mesma. Não posso afundar os tornozelos no chão, pois me impede a única coisa que nasci sabendo e executo com destreza: flutuar e dar rodopios a alguns centímetros do chão.

Sempre fui irresponsável comigo mesma, nunca com quem amo. Irresponsabilidade na medida exata, no limiar entre chatice e loucura. E essa linha tênue, não a tenho enxergado mais... Tendenciono a um dos extremos por não ser mais capaz de vê-la.

Antes louca que chata.
Prefiro que um louco me acompanhe... Mas os loucos pós-modernos são, no fundo, uns chatos.

Especialmente e profundamente sem ar.

Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007

Casal de camaleões


A HISTÓRIA NA ÓTICA DO CAMALEÃO.

...O camaleão se despediu da sua mãe e resolveu correr o mundo. Ficou vermelho quando beijou de despedida a sua namorada.
Na viagem, ganhava dinheiro ficando invisível em plena rua. Imitava os tijolinhos de Londres, a cor de areia de Paris, a cor branca das casas gregas.
Mas voltou para casa depois de um ataque de nervos quando, na Escócia, teve uma crise sem conseguir imitar o xadrez da roupa escocesa.
Voltou para casa e foi sua namorada quem ficou vermelhinha quando o beijou. E viveram vermelhinhos para sempre.

A HISTÓRIA NA ÓTICA DA CAMALEOA

(antes do “viveram vermelhinhos para sempre”)...
... Depois de beijar sua namoradinha camaleoa, o camaleão voltou às atividades normais do seu dia-a-dia. Ele era o livreiro da cidade. Garimpava livros antigos e tinha uma extensa lista de exemplares. As suas viagens para Londres, Paris, Grécia e à frustrante Escócia contribuíram para fazer do camaleão o mais famoso livreiro que o mundo já havia visto. E assim os dias continuaram passando...
... e a camaleoa, namorada dele, ficava cada vez mais esquecida. Não havia mais a saudade causada pela volta ao mundo que o camaleão sentira antes. E toda vez que a camaleoa batia o tapete, cheia de bobes no cabelo e gritando colérica com os guris que jogavam bola na rua, o camaleão se desencantava, inconscientemente. E cada pózinho jogado ao ar pelo tapete da camaleoa, cada pózinho dos livros velhos que o camaleão limpava todo dia, era como um pedacinho do encantamento mútuo que os dois tinham. E tinham cada vez menos...

CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA DA CAMALEOA PELO CAMALEÃO

E assim os dias continuaram passando e o nosso livreiro, agora reconhecido como grande escritor e livreiro, deixou que as cores lhe subissem pela cabeça. Cada dia se enfurnava mais em tomar as cores dos sonhos e desejos de seus leitores. Ter as cores da fama e da estima dos seus leitores fez com que ele esquecesse, pela primeira vez no dia 5 de outubro, de dar um buquê colorido a sua namoradinha camaleoa. Ele, tão absorto em seus planos de colorir o coração do mundo, não notou que esta desbotava em cinza cada vez mais intensos.
No dia 6 de outubro, indo encontrar sua amada num café, perdeu a página central de um livro ao ser arrancada por uma inesperada lufada de vento. Era um livro de bruxarias. Nesta noite, uma bruxa das trevas se instalou no casarão em frente e, a cada manhã, as páginas estavam com menos cores. Ao fim de um mês, os textos continuavam ali, mas as gravuras estavam totalmente negras.

FINAL PELA CAMALEOA

... e quando se deram conta, estavam os dois presos aos seus livros e aos tapetes... e ao pózinho que voava em cada batida...
O camaleão não foi embora. Não falou nada.A camaleoa se cansou dos bobes no cabelo... Ela foi embora ganhar a vida como antes tinha feito seu namoradinho. Ficava invisível imitando as pedras dos castelos portugueses, a cor cinzenta do céu de Londres, as luzes da Cidade-luz. A cidade-luz era a sua preferida... E quando ela tentou imitar as cores dos amores parisienses, não conseguiu. Foi embora... Frustrada.
Voltou para casa e reencontrou seu antigo namoradinho camaleão. Ela o beijou e os dois ficaram vermelhinhos para sempre (como nunca haviam ficado)...

FINAL PELO CAMALEÃO

O camaleão percebeu que perderia as cores dos livros para sempre. Naquela noite, em tons de cinza, invadiu o casarão da bruxa das trevas. Levava potes de todas as tintas. Mas não havia bruxa nenhuma na casa em frente. Estava vazia. No dia seguinte, insone e desiludido, o camaleão namorado encontrou a camaleoa namorada e, olhando dentro dos olhos dela depois de meses sem o fazer, falou de seus fracassos e como ela era única luz da sua vida. O corpo da namoradinha camaleoa se iluminou, todas as gravuras perdidas foram deslizando por ela e o namorado camaleão, pela primeira vez, de fato, olhou para aquelas gravuras. Ela acariciou sua cabeça e mandou, severa e com a voz doce, que ele fosse dormir. Voltou sozinho para casa, desanimado e, ao abrir os livros, as gravuras estavam de volta e com cores mais intensas. Quando abraçou a namoradinha camaleoa, ficou vermelhíssimo como o coração dela. E da manga tirou uma violeta multicolor para ela. Ela ficou só vermelha.

Domingo, 23 de Setembro de 2007

L'amour... C' est une embuscade

O que é o amor? O que nos faz amar e ser amado? Não sei.
Talvez o amor seja um carrasco que nos arraste pela gola da camisa contra a nossa vontade. Você até tenta se desvencilhar, mas ele tem muito mais força. Depois você se acostuma e começa a nutrir um tipo de dependência, de apego e de tudo o que vem com ele. Até que, em uma bifurcação da estradinha de terra batida, pela qual você vem sendo arrastado, o carrasco solta sua gola, não diz nada e segue por uma das ramificações. Você se vê perdido por ter passado tanto tempo sem andar só e por ter desenvolvido um sentimento meio enigmático por aquela figura estranha. Daí, tem-se duas alternativas: seguir o carrasco avidamente, acompanhando seu ritmo e esperar ser arrastado novamente, ou tomar a outra direção, trocar as calças sujas e gastas, comprar outra camisa de golas novas e esperar que o carrasco volte.
Só que as pessoas que escolhem essa última, não sabem de uma coisa... Na hora de comprar a camisa nova, elas sempre escolhem uma de gola mais resistente para serem arrastadas por mais tempo, para se gastarem mais lentamente.
Pobres criaturas burras...
Se fossem um pouco inteligentes, elas optariam por um modelo diferente: uma regata, um tomara-que-caia, um decote não usado anteriormente. Isso obrigaria o carrasco a pensar COMO iria fazer sem a gola. Ele teria que encontrar uma alternativa e não, simplesmente, arrastar. Se o carrasco estiver mesmo interessado, ele encontrará um meio. Se não estiver, vai embora e a pessoa não precisa passar por tudo em vão, sendo abandonada mais à frente.
É... Talvez o amor seja mesmo um carrasco. Um carrasco nem bom, nem ruim. Um carrasco que manda, mas que pode ser mandado. Depende...

Acabei não respondendo nada. Só cheguei a uma frase:
"Você escolhe se quer amar sem intervalos."

Será que é mesmo possível? Será que é uma escolha?
Não sei se concordo muito com essa história toda...
Perguntarei ao carrasco!

Sábado, 15 de Setembro de 2007

Je suis Amélie Poulain

Oui, Amélie... Sutil Amélie...
Me vi em Amélie. Vi meus passatempos: girar a moeda sobre a mesa, fazer fileiras de dominó e ter o prazer de ver pedra por pedra sendo derrubada. E a cola no dedo até que seque para poder tirá-la como uma camada fina e elástica; adoro as impressões digitais que ficam nela. Me faz pensar que existo. O som delicado que sai de uma taça com o leve passar dos dedos nas bordas...

Oui, Amélie... Pobre Amélie...
Aquela expressão séria quando criança. O sorriso que faltava pela falta de carinho, atenção. Pai frio, mãe neurótica. Perder seu peixinho, único companheiro de uma infância sozinha. Melhor jogá-lo no rio que esperar mais um de seus ataques suicidas. Um peixe suicida era o que menos Amélie precisava. Preferia um peixinho livre...

Oui, Amélie... Sutil Amélie...
Me vi em Amélie. Vi meus dedos entrando, lentamente, em um saco de cereais no mercado só pela sensação dos grãos envolvendo minha mão. Vi meu rosto se virando para trás no cinema para observar as expressões das outras pessoas que assistiam ao filme. Me vi pegando pedrinhas ovais na rua e guardando-as no bolso do meu casaco. Depois jogá-las no rio, ou canal, ou qualquer lugar com água. Fazer a pedrinha saltitar pela superfície o maior número de vezes possível.

Oui, Amélie... Rápida Amélie...
Me vi em Amélie, embora precise aprender mais com ela. Preciso aprender vinganças
a la Poulain. Vinganças delicadas. Irei adiantar o despertador do Collignon que aparecer na minha vida só para que ele abra a barraca de frutas e legumes quando nenhuma dona-de-casa estiver acordada ainda. Irei trocar a pasta de dentes dele pelo creme para pés secos. Irei trocar o cadarço do seu sapato por um barbante. Trocarei as maçanetas da porta do banheiro. Me vingarei com classe.

Oui, Amélie... Exótica Amélie...
Quero os sapatos de Amélie. Grandes sapatos pretos no estilo mais Carlitos possível. Que eles me levem a decifrar enigmas da cabine de fotos. Que eles me levem à soluções inesperadas para casos banais. Quero um corte chanel para sentir o vento bater na nuca. Quero fazer as pessoas acreditarem. Quero acreditar nas pessoas...

Amélie gosta de estratagemas porque alguma covardia a persuade. E quem não é covarde?

Amélie e seus pensamentos mágicos. Me vi Amélie.

Amélie vê detalhes que ninguém se dá ao trabalho de ver. Ela vê o que está óbvio... O óbvio escondido dos outros. Porque ela vê além. E além é longe demais para os olhos acostumados...

Oui, Amélie... Me vi Amélie...

Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

Doidinha que se sustenta numa perna só

Eles conversavam sobre algumas amenidades, sobre algumas perversões e sobre algumas características de personalidade. Ele disse que a achava "doidinha".
Doidinha?? Aquilo bateu nos ouvidos dela e perguntou o que era ser "doidinha". Doidinha em que sentido? É muito descaramento ter sido chamada de doidinha! Logo ela, que andava na linha (ou tentava), que tinha valores imaculáveis. Ela era tão careta! Todos reclamavam por ser "certinha" demais...

Bem, sei que eles continuaram conversando. Ela ainda tentava entender o porquê de ter recebido tal adjetivo.Até que ele disse: "Você quer característica mais forte de uma doidinha do que ser alguém que se sustenta numa perna só?"

Ela calou-se. Sustentar-se numa perna só... Sustentar todo o peso numa perna só... Pensou, pensou e perguntou como ele percebera e se era uma coisa muito freqüente. Quanto à freqüência, a resposta foi "não muito". Como ele percebera: "não sei... percebi".

Quis saber se algo mais o fazia pensar nela como "doidinha". Ele repetiu a justificativa da perna. Ainda disse que, normalmente, a direita era quem carregava o peso.

Era uma resposta lúdica demais. Sem dúvida, fora uma observação meticulosa... Quem iria reparar no seu centro de gravidade?? Isso tinha que vir dele mesmo...

Parou, então, de perguntar sobre o que é ser "doidinha". Sabia que não era só a imagem de um Saci que compunha o significado da palavra. Sabia que ia muito além... Era a percepção dele, e nenhuma percepção pode ter uma descrição tão simplista. Ele costuma ter explicações e definições para tudo. Rápidas e objetivas. Mas ela sabia que isso era a ponta do iceberg. Palavras simples escondendo uma teia gigante de significância.

Ah! E ele se esquecera, ou preferiu não saber, de perguntar o adjetivo que ela daria a ele.

"Doidinho", diria. Doidinho não por se sustentar numa perna só... Doidinho por não ter nenhuma das duas pernas no chão.

Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Flight Delayed

Era uma menina de seus cinco ou seis anos, parada em meio a um mundo de gente e malas e vozes. Estava na mesma posição havia algum tempo. Pela idade, deveria estar agitada, chorando ou correndo de um lado para outro. Mas ela estava lá, inabalável. Uma adultazinha em miniatura... Era isso que a família falava... Menina precoce, amadurecida - cruz pesada demais para uma nanica de bochechas grandes e vermelhas.

A menina continuou esperando, pacientemente, sentadinha em uma das cadeiras do outro lado do balcão de embarque. Ela tinha olhos fixos naquelas cores vermelhas e verdes do nome da empresa, não porque as achara bonitas, mas seus pais estavam lá, as pessoas por quem ela esperava. Os via de longe porque preferiu sentar e ficar à deriva, observando o movimento e as pessoas e para se sentir um pouco auto-suficiente. Era criança mas podia se virar sozinha em um aeroporto. Ficar em uma fila de mãos dadas com os pais não causava uma imagem adulta e independente... Era coisa para meninas mimadas e choronas e ela era uma mulher moderna...

Ela tentava disfarçar, mas mantinha os olhos ligadíssimos na figura dos pais. Não queria que as pessoas percebessem sua insegurança, ao mesmo tempo que não queria se perder ali, naquele aeroporto grande e cheio de gente estranha. Até que uns pensamentos foram passando pela cabeça dela. Umas idéias que se transformavam em hipóteses cada vez mais estimulantes. Com isso, a menina distraiu-se...

Imaginou-se com uma mochila nas costas onde levava seus bens mais preciosos e necessários. Não sabia bem que coisas seriam essas, nem conseguiu definir, exatamente, que destino iria tomar. Qualquer criança diria Disney; ela pensou, por um momento, na Torre Eiffel. Estranho...

Imaginou-se andando pelo aeroporto, sozinha, passos firmes e cartão de embarque na mão. Passaria por todas aquelas moças altas, bem vestidas e homens elegantes até entrar no avião e sentar-se na janela. Esperava não sentar perto de alguma criança incoveniente. Esse "tipo" a envergonhava de ter a mesma idade que eles.

Depois disso, só imaginou sua chegada em outro aeroporto, maior e mais bonito que o do embarque. Fora do aeroporto via a Torre Eiffel. Somente. Ainda não tinha estrutura suficiente para saber do que e como viveria em Paris. Não tinha pensado, sequer, que deveria falar francês.

Quando a menina recobrou o senso de realidade e pousou daquela fantasia, lembrou-se dos pais. Olhou, apressada, para o balcão vermelho e verde: eles continuavam lá. Ficou aliviada, mas outro pensamento veio à sua cabeça: e se eles tivessem ido embora? Ela iria ter que se virar sozinha e poderia ir à Paris.

Não era dessa vez... Só restava a ela esperar e acompanhar os pais onde eles tinham decidido ir. Sua mala estava grande e pesada, sinal que poderia ser uma viagem definitiva. E o pior: uma viagem definitiva para um lugar que ela não sabia se a interessava.

Depois do balcão, dirigiram-se para o portão de embarque, o casal de mão dadas e ela com os braços e mãos livres. Tinha que manter alguma autonomia.

Pobre da menina... Nem precisou se dar o trabalho de aprender outra língua. Isso era muito chato, uma mesmice. E ficou por lá por algum tempo, embora não tenha sido "para sempre" ,como antes ela desconfiou ser.

Converso com essa menina - que hoje não é mais menina - todo dia. O mais interessante foi a relação que ela criou com aeroportos. Toda vez que entra em um, uma melancolia a abate. Ela sente a mesma fantasia de pegar uma mala grande, não mais uma mochila, e andar pelo saguão principal até decidir que destino deve tomar. Ela continua pensando em Paris, embora outros elementos, além da Torre Eiffel, tenham sido adicionados ao seu pensamento. Ela, agora, sabe das implicações culturais em aprender o idioma local, se acostumar aos hábitos e valores. Sabe que precisa se sustentar. Sustentar o corpo e a alma, sozinha.Essa fixação pela Cidade-luz tem se transformado em fixação por cidades que tragam uma luz diferente ao cenário da vida dela. Pelo menos é isso que eu falo para ela.

Hoje a acompanhei até o aeroporto. Calou-se, subitamente. Desde o momento que entrou pelas portas de vidro... Desde o momento em que ELE arrastava a mala pelo piso brilhoso. Ela o acompanhava, mas não dizia nada... Nem precisava. Pensou em sua mochila, com uma ou duas camisetas e um jeans bem surrado que havia usado na noite anterior, levá-la e comprar uma passagem para o primeiro vôo com destino ao velho continente. Só avisaria quando estivesse em solo distante. Diria que voltaria quando desse, quando achasse que devia. Ou nem voltaria... "Menina precoce..." "Menina amadurecida..."

E ficou calada durante o tempo que permanecemos lá.
Espero que ela me avise quando resolver partir.


Ela avisará a quem importa...
Ela me dirá.

Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

Compra-se consolo

E lá vêm os pensamentos.

Procuro alguém que possa me consolar. Algum consolo, compensação. Alguém que tenha lampejos de idéias que duram milissegundos e se esvaecem. Que tristeza perdê-las para o tempo que as consomem. Alguém por aí que sofra do mesmo mal?

Preciso da palavra de um alguém tão sortudo quanto eu, por ter imagens tão únicas, e tão azarado, por elas se dissolverem tão rapidamente.

Acabei de perder uma idéia galopante. Ela passou diante dos meus olhos como um feixe de luz intenso e fugidio... Agora só me valho de lamentos por tê-la perdido.

Inferno de vida veloz.

Welcome, old eyes!

Creio eu que não chegava a ser onze horas ainda quando passa um homem na frente da minha casa. Nem novo nem velho, nem gordo nem magro, nem alegre nem triste. Para ser sincera não me lembro da fisionomia dele. Essas três características são as únicas que me lembro. Pensando melhor, talvez eu não tenha observado direito, por isso o "nem gordo nem magro" e por aí vai.

É que, ultimamente, tenho sofrido de uma ligeira falta de atenção. E me perco ao tentar distinguir um senhor de noventa anos e um menino que elege sua cor favorita pela primeira vez. Engraçado que essa concentração me foge e não está focada em nada específico. É como se ela estivesse espalhada por cada vértice que une as paredes do quarto azul, por cada canto da cidade cheia de luzes... e elas me ofuscam.

Penso se seria o caso de comprar um daqueles cursos em dvd para aumentar memorização e concentração, daqueles bem vendidos com o idealizador mais charlatão possível. O curso mais falado. O mais placebo possível. Assim não vou criar esperança. Assim não vou ficar como querem que eu fique...

Não quero ver o que me machuca.

Quarta-feira, 5 de Setembro de 2007

Burn it!

Sou paixão até o último fio de cabelo. Faço com paixão... Eu crio minhas paixões e tento vivê-las. Paixão não é a pele somente, não é a palavra somente. As minhas paixões têm cheiro, textura, poesia, tragédia e comédia, exageros e minimalismos.


As minhas paixões são transeuntes num cenário inesperado e causam surpresa até a mim mesma. As minhas paixões vêm em forma de acordes novos e clichês, melancólicos e alegres. Elas vêm em forma de frases conexas e pensamentos fugidios, gramática correta e deslizes sintáticos.

Minhas paixões são gritantes! Têm cores vivas que saltam do papel que pinto, da lembrança que carrego, dos planos que faço. Têm sons curiosos...

Tenho mais paixões do que um otimista pode acreditar existir. Cada piscar de olhos, cada passo e abanares de cabeça: tudo com paixão.

Só que paixão consome energia, gera expectativa e gasta tempo. E aí? É como se ficássemos pelo meio do caminho. E só...

Segunda-feira, 3 de Setembro de 2007

Seja "original" ao pecar


É tudo pecado mesmo...
Eva devorava tudo o que era vermelho.
Michael tirou a sua pele e substituiu por uma pele de urso polar.
Fernando comprou palmeiras para sua casa e não deu um tostão sequer para os mendigos.
Anaïs pegava Henry e mais 200 homens.
George disse não e pronto.
Adolfo matou quem não tivesse seu bigode.
Luís ficou deitado esperando as coisas acontecerem.
É... é tudo pecado mesmo...

Domingo, 2 de Setembro de 2007

Nada que não se resolva

Duas comadres de longa data conversavam na calçada da casa de uma delas. Uma chamava-se Geribalda, uma vitalina de 60 anos, que substituiu a idéia de filhos por um gato preguiçosos e traiçoeiro. A outra chamava-se Delionice, senhora de 59 anos, 5 filhos criados, 8 netos no mundo e um marido barrigudo, tão preguiçoso quanto o gato de Geribalda.

As comadres moravam em um interior longe da capital e todo dia se encontravam à tardinha para uma prosa demorada. Um dos assuntos daquele dia era a fuga do gato de Geribalda. Aquele maldito gato sempre inventava de desaparecer por alguns dias e depois voltava para casa como se nada tivesse acontecido. O outro assunto era o porquê de Delionice estar tão desanimada ultimamente. Ela não sentia mais vontade de sair de casa, de ir às quermesses, nem de ir à Igreja. Nem ir à Igreja!! Ultrajante pensar na ausência de uma beata tão dedicada nas missas de domigo. Mas essa Delionice meio triste tinha aparecido.

Geribalda, ao perceber essa tristeza da amiga, bem que tentou animá-la. Passava na sua casa sempre que podia para andarem um pouco na cidadezinha e ver gente. Ensinou-a a tocar os instrumentos que sabia: pandeiro, viola caipira, gaita... Ensinou a fazer tricot, a pintar quadros sertanejos, a fazer esculturas no barro. Geribalda sabia fazer muitas coisas, não porque era talentosa por natureza, mas porque não tinha marido e filhos para tomar conta e preenchia o tempo ocioso inventando algo. Não foi opção dela; simplesmente Geribalda não era lá muito favorecida pela beleza e, por isso, nenhum dos homens da região a quis para casar.

Mas nada que Geribalda pôde oferecer à amiga, funcionou. Delionice continuava com um olhar triste e com poucas palavras.

O tempo passou e passou...

Até que o marido pançudo de Delionice, numa noite de vento parado, chega bêbado em casa e agarra a mulher avidamente. A noite foi longa.

A tristeza de Delionice passou e passou...

Sábado, 1 de Setembro de 2007

Menina, menina...

Um dia falaram à menina que casar e ter filhos era algo que chegaria naturalmente no decorrer de sua vida. Ter um casal de filhos era o ideal: um menino e uma menina, fazendo companhia um ao outro, preenchendo a vida dos pais de alegria. Um marido dedicado ao trabalho e, principalmente, à família. Ahhhhh, a família...O grande objetivo: constituir família.

Mas se esqueceram de dizer à menina que ela tinha a opção de dizer "sim" ou "não" ao casamento e aos filhos. E se quisesse ter só uma menina? Ou cinco herdeiros? Ou uma casa com as paredes pintadas de amarelo e um cachorro preguiçoso...

Ela poderia ser mãe solteira, ou ser casada e não ter crianças; ser uma simples descendente woodstockiana de púbis à mostra ou uma dona-de-casa dedicada; uma mulher de negócios ou uma suburbana cheia de bobes no cabelo.

Ninguém havia dado essas opções à menina. Ela crescera dentro de um vestidinho florido e fitas no cabelo. Fitas e idéias românticas.

Hoje, depois de algumas décadas, eu a vejo caminhar na rua e tento decifrar qual desses perfis se encaixa melhor na expressão do seu rosto de olhos misteriosos. Não consegui identificar nada. Ela não deixava nenhum rastro.

Até o dia em que ela olhou nos meus olhos esboçando um sorriso tímido enquanto passava em frente ao portão da minha casa.

Descobri. Era a mesma criança de longos anos atrás. Sem as fitas no cabelo. Mas as idéias românticas enraizadas em cada ruga do seu rosto continuavam ali...

Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007

Slow down you crazy child!

A intenção desse blog é a de escrever coisas próprias. Mas, hoje, vou abrir uma exceção e postar uma música do Billy Joel. Essa exceção só foi aberta porque a letra tem o teor do texto que eu estava escrevendo. E é bem melhor escrita.
Billy deve ter me conhecido quando a compôs. Ele só errou na geografia; confundiu-se e esceveu Viena... Mas, tudo bem... O resto ele soube fazer. Para facilitar, a música já está traduzida.


*VIENNA*

Devagar, sua criança louca!
Você é tão ambiciosa para uma menor.
Mas, então, se você é tão esperta,
Diga-me porque ainda está com tanto medo?

Onde é o incêndio?
Qual é a pressa?
É melhor você esfriar antes de você queimar tudo.
Você tem tanto o que fazer e apenas tantas horas num dia.

Mas você sabe disso quando a verdade é dita,
Que você pode ter o que você quer
ou só envelhecer
Você vai dar um jeito antes de você conseguir metade do caminho andado
Quando você vai perceber que
Vienna espera por você?

Vá devagar, você está indo bem
Você não pode ser tudo o que quer antes do seu tempo,
Embora é tão romântico, afinal de contas, essa noite
Essa noite.

Que pena, mas é a vida que você leva
Você está tão à frente de você mesma que você esqueceu o que precisa
Apesar de que possa ver quando está errada
Você sabe, você nem sempre pode ver quando está certa.
Você está certa.

Você tem sua paixão, você tem seu orgulho,
Mas você não sabe que só idiotas estão satisfeitos?
Sonhe à vontade, mas não imagine que todos eles se tornem realidade
Quando você vai perceber que
Vienna espera por você?

Vá devagar, sua criança louca!
Tire o telefone do gancho e desapareça por um momento
Está tudo bem, você pode perder um dia, ou dois
Por que você não percebe que
Vienna espera por você?
Quando você vai perceber
Vienna espera por você?

Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

Queratina, s'il vous plait !

Depois de dias descabelada e às voltas com
tudo o que diz respeito à Universidade, só resta esperar...
E começar a se pentear, afinal, que mulher gosta de cabelo despenteado?




Domingo, 26 de Agosto de 2007

Sessão melancolia (1)

(texto escrito dia 23.08.05 - ano de vestibular...)

O dia de hoje não impede que o sol se ponha.
Tenta-se tirar cada sopro de liberdade,
Cada coisa para a saciedade da alma
Dos seus medos, desejos, perdões...
Para que cada célula seja consumida
No seu ímpeto, guilhotinado.
Segue-se o guizo de sons indecifráveis
Em procuras intermináveis... intermitentes...
Infindas... de lógica inexistente.

O dia de hoje não impede que a chuva continue.
Nada é só dentes.
Nada é só.
A vida que anda vagando por guetos,
foi esquecido por si mesma,
de si mesma,
pelo outro...

A razão de SER é o orgulho saltando de pára-quedas.
O consolo de amar é a retaliação do fim.
Ser o humano que se espera é querer espreitar os planos que o futuro elabora,
E a assimetria é o Senhor Supremo...
Porque, linear, só as letras,
Nunca as idéias.

O instinto que destrói a solidez edificada
Compõe a obra mais bela
Despida de toda a pretensão de ser única
Porque é tudo! São todos!
Tudo é abismo, transição.
O medo da recusa quebra os alicerces da alma,
Lhe rouba o tempo, o gozo do risco,
A sabedoria do novo.

O dia de hoje é o futuro atado ao relógio,
Ao SEU relógio de corda!
A cada piscar de olhos do âmago
Que buscam direção... Perdendo o que sobra, tocando o que falta...

O dia de hoje é amanhã. É sempre!
É para sempre!
Dê corda...

Sábado, 25 de Agosto de 2007

Marasmo... o que lhe convém

Ele havia percorrido o quarteirão inteiro mais de uma vez. Olhou para sua mão que segurava meio displicente a coleira do cachorro. Aquele cão andava sendo o seu mais fiel companheiro. Resolveu seguir adiante até o parque, que não ficava muito longe dali. Compraria um expresso no café da esquina, sentaria em um banco embaixo de alguma árvore e folhearia o jornal.

Durante o percurso, vinha lembrando da semana corrida que tinha se passado. Foram dias de trabalho estafante naquele escritório apertado e desorganizado. Era muita burocracia para pouca mudança. Mas isso já não mais o deixava indignado. Muitos anos haviam se passado e, com eles, aquela inquietação dos tempos de estudante, de um jovem sedento de melhoras, ações e justiça. Agora, ele estava acostumado àquela rotina frustante, passar o dia redigindo relatórios sem muita utilidade, ligar o automático, carregar aquela barriga proeminente no caminho de casa para o escritório e do escritório para casa. Há alguns anos era era isso que acontecia.

Hoje, sua mãe o tinha acordado com um telefonema às 7 da manhã. Em pleno sábado ser tirado da cama por uma histérica, que falava na necessidade de arranjar uma mulher para cuidar dele e da casa, não é das situações mais agradáveis. Ele passava um pouco dos 40 anos e nunca havia se casado. Alguns romances aqui, outros acolá... Nada de muito sério. A verdade é que a idéia de uma vida conjugal não o agradava muito. Acordar todo dia ao lado da mesma mulher e agüentar as brigas das crianças na mesa do café-da-manhã estava fora dos planos. Não sabia ele que a mesmice cotidiana chegaria, independente de esposa e filhos. A sua rotina agora era solitária. Seus casos amorosos e aventuras sexuais cada vez mais esporádicos e cada vez menos extasiantes...

Parou na calçada. Estava quase chegando ao café na esquina do parque. Olhou o relógio que marcava 16h. Olhou para o cachorro que o fitava de cabeça levantada: língua de fora e rabo abanando - ele sabia da alegria do cão quando, raramente, ia ao parque.

Desistiu de ler o jornal sentado no banco da praça. Resolveu voltar para casa. Lá ele faria um pouco de café, sentaria no seu sofá gasto e olharia a vida passar pela janela. Seu cachorro, apesar de desapontado, entenderia sua decisão.

Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007

Déjà vu !


Cansada.
Esgotada.
Sono atrasado.
Sonhos atrasados.
Pensamentos caóticos, impedidos de serem pensados.
Cansada.
Míseras horas de sono.
Perdi a chance de sonhar hoje .
Meus olhos fechando e a luz perfurando-os.
Cansada...
Quero minha noite de sonhos de volta!
Depois, quero meu sono...



Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007

Escapada!

É no intervalo entre uma palavra e outra dos meus outros escritos – os puramente acadêmicos – que escapo, sorrateira, para soltar meu verbo mal conjugado, aqui, em primeira pessoa. E essa primeira pessoa que ainda não havia aparecido... até agora...

Pensando bem, acho que se escreve melhor quando se está nos extremos: ou muito triste, ou muito feliz. Talvez aí esteja a grande recompensa de ser uma montanha-russa. Sentimos melhor quando nesses pólos. Discernimento? Não. Aí, já são outros quinhentos.

Neste exato momento, eu nem me encontro sorriso nem choro. Por isso, nenhuma história, cenário, pessoas ou sentimentos aparecem na ponta dos meus dedos. Só a pressa de acabar meus outros aglomerados de frases acadêmicas que me esperam numa página do WORD, prontas para serem submetidas às regras da ABNT. Coitadas delas! Viverão eternamente num cárcere privado editado pelas mãos de uma megera egoísta que se vale do poder delas para passar por média.
Infeliz!

Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007

psiiiiiiiiiu...

(Drew Barrymore como Chaplin)




Na falta de palavras que valham a pena vem o silêncio.
Foi no silêncio que encontrei as mais fortes verdades,
as mais belas imagens e os mais incríveis sons.
Só me resta silenciar...


Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007

Beduínos... Oui!

"Há uma solução!" Essa foi a exclamação dela! Encontrou uma alternativa para seu sustento. Sinceramente, acho que ela chegou a essa idéia por dois tipos de sustento: o financeiro e o da alma.

Ela viajaria ao Egito acompanhada de Ricardito como seu marido. Seduziria todo e qualquer homem de posses até que um deles desse o lance. Alguns camelos e barris de petróleo: esse era o objetivo.

Ricardito a "trocaria" pelos tais quadrúpedes. Ela acompanharia seu novo habib enquanto o verdadeiro vendia os corcundas. Quando ele já estivesse conseguido o lucro, ela escaparia do harém do habib com Ricardito. Com o dinheiro comprariam uma casa de veraneio no sul da França e alguns esconderijos ao redor do mundo para fugirem dos árabes coléricos.

"Uma idéia genial", pensou ela. Só não havia pensado em duas coisas:

a) se ela conseguiria algum pobre diabo interessado em lhe comprar com alguns camelos
b) e se esses camelos valiam dinheiro suficiente para a casinha no Mediterrâneo.

Alguém precisa convecê-la a não cometer essa loucura. Quem tentar, por favor, não seja ingênuo de citar esses dois fatores-contra. Isso só a impulsionaria.

Pelo o que pude perceber, ela continua encantada com a idéia.
Pelo o que pude perceber, o que mais a encanta não é a casinha no sul da França nem o dinheiro que ela poderia ganhar sendo trocada por camelos.

Alguém precisa tirar Ricardito desses planos para que ela desista...

Domingo, 19 de Agosto de 2007

Escusa

(àquela que desmentiu a existência maternal)

Eram as primeiras horas claras da manhã. A casa começava a ser invadida pelos primeiros feixes de luz suave. ELA acordara aos poucos, a cada pensamento fugidio, a cada movimento que espantava o sono.

Alguém havia deixado uma brecha na janela do seu quarto e ela sorvia o leve soprar da brisa. Era um despertador delicado e insistente.

Ela finalmente abriu os olhos. Por um instante resolveu ficar onde estava, imóvel. Não demorou muito até que desse um impulso e pisasse no chão com suas meias folgadas que lhe escapavam a cada passada. Estava tudo tão calmo... Aquilo a preocupava... A luz já havia invadido a casa quase que completamente e ela não ouvia o chiar da chaleira no fogo.

Desceu as escadas segurando o mais firme possível no corrimão. Não queria ser arrebatada degraus abaixo por displicência: ainda estava sonolenta e sabia do risco. Buscou explicações para todo aquele silêncio. Foi à cozinha e nada encontrou; nenhuma xícara fora do lugar. Andou pela sala e dependências do térreo da casa: NADA. Agora o sono havia passado e dado vazão a uma certa angústia.

Subiu as escadas com outro tônus e esquecida do corrimão. Foi até o quarto daquela por quem procurava e encontrou a cama perfeitamente forrada, sem uma fissura sequer no lençol. Ela parou na porta olhando fixamente aquele quarto vazio de ar fresco. Eram, apenas, uma cama no centro, uma estante antiga com livros esquecidos e uma escrivaninha com pilhas de papéis escritos à mão.

Saiu dali meio desnorteada e voltou ao seu quarto. Sentou-se na cama e percebeu a presença de um papel amarelado junto ao seu porta-retrato em cima do criado-mudo. Esticou o braço e pegou o papel.

No bilhete lia-se: "Cuide de você o melhor que puder. Precisei ir e não sei se volto. Amo você, minha filha."

Ela olhou novamente para a fotografia e tomou um novo fôlego. Levantou-se e foi pôr a chaleira no fogo. Alguém tinha que fazê-lo.

Sábado, 18 de Agosto de 2007

Salão vazio

As pessoas encontravam-se dispostas estrategicamente, como que em posição de luta ou fuga. Mas havia o sorriso nos lábios de cada um ali presente. Os dentes trincados emoldurados por dois traços ascendentes, um em cada lado da bochecha. Era isso que amenizava o clima do ambiente: gestos leves e sorrisos convidativos. Tudo falso.

Era um salão amplo, com assoalho bem cuidado. As pessoas de pé fechando seus círculos de conversas enquanto olhavam ao redor. As mulheres, ao lado de seus companheiros, com sorrisos estáticos. Não se via uma palavra proferida de suas bocas, apenas balançares de cabeça e hipérboles positivas nos lábios.

ELE estava tentando ser o mais invisível possível. As pessoas fitavam suas mãos inquietas que buscavam a taça de vinho desfilando na bandeja do garçom. Estava só e seus olhos procuravam algo. No sutil divagar de seus pensamentos, entre um gole no vinho e um piscar de olhos, ele lembrava do rosto dela. Eram como imagens vindas de um universo paralelo. Mas todos em volta percebiam o caos que havia dentro dele. E comentavam,
maliciosamente, como se soubessem por quem ele esperava tão ansioso.

ELE continuava só, olhando todo aquele cenário. O tempo parecia congelado. Passava das onze e meia. Ela não apareceria mais. Que idéia ridícula essa de vir à festa!

Saiu apressado, como que para compensar o tempo que havia perdido lá. Um passo por vez. Um mais apressado que o outro. Enfim, um pouco de ar fresco... Uma leve brisa batia no seu rosto.
Ele não podia tê-la agora, mas podia sentir sua presença.

Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

Questão si-lá-bi-ca...


Como se preenche um hiato?


Estive pensando em cores, em panos de fundo.

Estive pensando em amores, em imersões solitárias.

Nada de muito certo... Estratégia pela areia movediça. Procura em queda livre abissal.

Onde está o hiato?

O sopro de vida... O sopro das sensações jogadas pelos lábios do outro.

Lábios emudecidos por dentes que rangem... Lábios emudecidos por olhos que tolhem...

Como se preenche um hiato?

Ele anda vazio. Todos vazios de sonhos, vazios de cores e texturas, vazios de arrepios.

Nos falta o hiato que anda cheio. Ah, ele sim flutua entre os dedos, verte em direção à alma.


Preencha o hiato!
Mas encontre-o primeiro...