Blog novo!!!Mas o Pequeno Infinito continua.
"La veine entre les deux" é feito em dueto. Dois mundos. Um mundo só. A vida que corre na veia, na veia entre os dois...
www.notreveine.blogspot.com
Blog novo!!!
Tua melancolia me bate à porta como um bêbado ávido para chegar em casa, violento, trôpego, de palavras enroladas e aos gritos.
Tua melancolia me soa como o soprar do vento que entra sorrateiro pela fresta da janela mal fechada, um assobio leve que toca os pêlos dos meus braços.
Tua melancolia é funda, é cheia, é rica. Mas tua melancolia é, antes, triste. É necessária. Mas é triste. É parte de ti. Mas é a parte triste. Que te faz existir feliz. Mas é triste.
Esperei o inverno chegar ao céu. Esperei a chuva cair, brutal. Mas vi o colorido dos guardas-chuva na rua.
Esperei o acorde triste da música. Esperei o lamento do violoncelo. Mas vi a expressão satisfeita da solista.
Não toques, apenas, os dissonantes. Não toques, apenas, os maiores. Toque o que deve ser tocado, o que os dedos o levarem a tocar.
Mas toques vida. A vida que caleja os teus dedos com suas cordas, que dilacera a carne como lâmina afiada. A vida que te fecha as feridas, que suaviza a tua pele. A vida melancólica. A vida flamejante.
Tua melancolia dorme no meu travesseiro, se aconchega no meu lençol. Chora baixinho à noite e acorda adormecida. Permanece. Esvaece-se. Retorna. Luto.
Tua melancolia está comigo. “É” comigo. Sou eu. Somos.
E melancólicos ou não, somos ela.

Que me perdoe quem defende a arquitetura Cefichiana... Procurei arte nas pilastras do CFCH, nos desenhos das escadas, no piso que, ora brilha, ora pára o passo. Procurei arte nos elevadores temperamentais que sobem e descem, e param e caem e não funcionam. Procurei qualquer coisa para admirar ali, mas a pilastra muito saliente pulando para o meio da sala me impediu. E assim me desiludi. Esqueci qualquer possibilidade que houvesse digna de mudar minha impressão. E por um ano e meio me contentei em, pelo menos, aquele prédio ter carteiras nas salas de aula.
Me arrependi há cinco horas atrás. Conheço o CFCH diurno, expondo sua imperfeição muito claramente. Conheço o CFCH vespertino, preguiçoso e doido para tirar um cochilo. Conheço o CFCH noturno e seus dentes de vampiro salientes. Mas nunca estive exatamente às três horas da tarde no corredor do segundo andar. Posso ter passado qualquer hora da tarde, mas acho que nunca às três horas. Hoje, eu passei...
O sol que batia na parede de elementos vazados, os conhecidos combogós cor de telha do prédio, transformara o chão num tapete de bolinhas brilhantes. Eu não via parede, portas, murais e comecei a andar sobre os pontinhos amarelos... Atravessei todo o corredor sem-fim a passos lentos, como que para aproveitar toda aquela sensação nova. Sensações novas devem ser provadas lentamente, mesmo as que são desagradáveis, para conhecê-las ao máximo e querer repetir ou não, com toda a propriedade.
Provei. Cheguei no final onde não existia mais a parte vazada. Disfarcei para ninguém fazer mau juízo de mim, afinal, o que faria uma estudante de psicologia andando de um lado para o outro do corredor sem objetivo e olhando para o chão? Uma depressiva? Obsessiva- compulsiva? Esquizofrênica? Abri a bolsa, fiz de conta que esquecera alguma coisa do outro lado e voltei, ansiosa para sentir o chão reluzente e sentir minhas pupilas no frêmito de contrair e dilatar. Mas, no meio do caminho, logo depois de uma piscadela que dei, tudo evaporou. O chão estava como sempre fora, como sempre é quando sento nele toda manhã para relaxar: escuro, com seus pontinhos pretos normais. Parei inconscientemente esperando o fenômeno acontecer novamente. Não houve nada.
Fui embora me perguntando o que teria sido aquilo tudo. Não sei se uma alucinação da minha cabeça fantasiosa ou se realmente aconteceu. E, se aconteceu mesmo, duvido que se repita do jeito que aconteceu. Não era o sol brilhando nos combogós do CFCH. Era algo mais e não cabe a mim tentar, em vão, procurar meios para descrever o que foi realmente.
Saí do prédio e não pensei mais em procurar arte ali.
Voltei para casa depois de mais um dia no nada dadaísta CFCH...
Voltei para casa depois de descobrir o realismo fantástico do CFCH...





Querida,
Eu estive pensando: eu não tenho medo de nada neste mundo. Eu já vivi tanta coisa,
que não há nada do que você possa jogar em mim que eu já não tenha ouvido. Acho que
é por isso que não consigo compor como antes. Às vezes, querida, eu só tento
encontrar uma melodia decente ou fazer uma canção que eu possa cantar em minha
própria companhia.
Não consigo parar de pensar nas coisas que você tem me demonstrado. Eu nunca te
achei uma boba, nunca. Mas, querida, olhe para si agora... Você tem que ficar em
pé, conseguir carregar seu próprio peso. Você chorar desse jeito não vai adiantar.
Essas suas lágrimas não irão a lugar algum.
Entenda, você tem que chegar a um acordo consigo mesma e não ficar presa a um
momento sem conseguir sair dele, como está acontecendo. Não cruze seus braços como
está fazendo, não ache que o tempo vai resolver tudo se você nem se move para tentar
sair desse momento que está prendendo seu corpo.
Eu pensei bem e entendi que seria impossível renunciar às cores que você me traz.
Me lembro das noites que você preenchia com fogos de artifício e que, hoje, elas
te abandonaram. Mas essa luz, que antes era trazida por sua alma, me enfeitiça até
agora, mesmo sem existir mais. Eu ouço através dos seus ouvidos e posso ver através
dos seus olhos. Sabe, às vezes acho que você é uma boba mesmo, por se atormentar tanto. Eu sei que
é duro, que quase nunca o que você consegue é o bastante, ou o que é realmente
necessário. Porque o muito para você é pouco, querida. Eu sei o quanto é difícil... Isso tudo eu percebi quando eu estava meio inconsciente, meio adormecido, quando
tudo na minha cabeça ficou claro e quis te escrever. Sentindo o que você é, como é
e a sua intensidade, eu descobri que a água só é morna até que se descubra o quanto
ela é profunda. Você sempre foi profundeza para mim... Tentar enxergar mais de você não é um pulo do meu para o seu mundo, é uma queda
violenta, uma queda rumo ao nada absoluto. Você tem que dar a volta por cima, meu
amor. Você está paralisada num momento e não consegue sair dele... Se a noite se exceder, se o dia não durar, se o nosso caminho estremecesse ao longo
de um caminho de pedras, não se exaspere, meu bem...
É apenas um momento.
E esse tempo passará... Do sempre seu.

(na foto, Gardênia - de escova no cabelo e temporariamente morena - entre o publicitário e o designer. Os outros dois viajavam a trabalho)Gardênia, vulgo Deninha, estava morando na França há seis meses. Foi disposta a estudar temas sobre as representações sociais dos gêneros no cinema, como feminista que era. Mas, desde a sua chegada, não tinha conseguido se concentrar, de tão encantada com sua mais nova e doce convivência européia.
Me chamo Diógenes. Meu melhor amigo é o Cylândio. Moramos no mesmo bairro já faz uns dez anos. Quando cheguei aqui, Cylândio já vivia numa casa simples e de muro baixo. Eu me mudei para uma casa amarela - amarela mesmo - que era rodeada por uma cerquinha de madeira… Amarela.
A mãe do meu grande amigo é linda. Deve ter uns trinta anos, mais ou menos. Já ouvi falar num tal de Balzac, um escritor famoso aí, que fala de mulher de trinta anos. Vou pesquisar na internet para ver se descubro alguma coisa sobre o que esse cara fala porque paciência, paciência mesmo, de ler livro eu não tenho. O pai do meu amigo, e marido da sua linda mãe, é representante de vendas e viaja muito.
Resolvi escrever hoje por um motivo muito sério, um fato que aconteceu comigo há uns dias atrás. Na verdade, eu estou bem orgulhoso do que aconteceu e, ao mesmo tempo, um pouco confuso.
Fui procurar Cylândio na casa dele, terça-feira passada de manhã. Entrei pelo portãozinho que ficava destrancado sempre. Gritei o nome dele uma vez e escutei uma resposta vinda lá dos fundos da casa.
- Entra, Diógenes.
Eu escutava um barulho de água e fui seguindo até lá, no quintal. Quando cheguei, vi Dona Gerlaine no tanque, lavando roupas. Ela estava com um shortinho daqueles que só se usa em casa de tão pequeno e depravado e uma camiseta branca. Aqueles cabelos cacheados curtinhos e saltitantes e sua pele angelical de tão branca contrastavam perfeitamente bem com aquela cena doméstica. Fiquei ali, parado, olhando para Dona Gerlaine, maravilhado. Ver os músculos do braço dela contraíndo-se no vaivém da roupa esfregada contra o tanque me excitou, um tipo de excitação que só tinha sentido quando, uma vez, vi uma mulher pelada na revista do Mago, um amigo nosso, e ela nem era tão bonita assim.Ela não tirou os olhos da roupa e começou a falar:
- Oi, Diógenes. Se estiver procurando o Cylândio, ele não está. Foi para a casa da avó. Só volta de noite.
Agradeci, mas eu não consegui me mover para ir embora. Me mantive ali, apreciando o espetáculo de pernas bem torneadas e fortes que eram ainda mais atrativas quando Dona Gerlaine ficava na ponta dos pés para um apoio melhor na labuta da lavagem das roupas. Ela era um pouco baixinha para a altura o tanque. E esse era um elemento importantíssimo na composição daquela cena.
Percebendo a minha inquietação dentro da minha imobilidade momentânea, Dona Gerlaine parou o movimento das mãos, olhou para mim e disse:
- Bem, Diógenes, só porque o Cylândio não está, não significa que você não possa me fazer um pouco de companhia...
Disse isso com um olhar que, até então, eu desconhecia de Dona Gerlaine. Na hora, sob o impacto de um medo repentino e estranho, inventei que precisava fazer umas coisas
Foi na hora de pendurar as roupas no varal que não contive minha ereção. A camisa branca (e transparente) da Dona Gerlaine estava encharcada de água e, quando ela levantava os braços para alcançar o varal - bendito seja ele – eu conseguia ver, num instante de segundo, aqueles peitos incríveis. Disfarçava com as mãos o efeito que aquela visão causava ao que estava sob meu calção folgado e fino, daqueles que os jogadores usam numa partida de futebol.
Ela já havia percebido, tenho certeza, e como se não bastasse, me pediu uma “mãozinha” para alcançar o varal.
- Você colocou os pregos muito altos, Dizinho. Venha aqui me levantar para eu alcançar melhor.
Bandida! Por que ela não me pediu um banco ou que eu mesmo fizesse o serviço? Só sei que, bandida ou não, fiz o que me pediu sem pestanejar. Segurei na sua cintura fina, por trás, e a suspendi. Depois de um tempo fazendo isso, comecei a apertá-la contra o meu corpo e laçar sua cintura com o braço todo, já que o apoio era melhor – ou, pelo menos, essa foi minha grande desculpa.
Depois de acabada a grande odisséia no quintal, ela disse que me faria um suco. Fomos até a cozinha e comecei a ajudar Dona Gerlaine a cortar um abacaxi. Eu, muito inexperiente nessa tarefa – eu nunca faço nada em casa porque tenho uma mãe que me faz todas as vontades – acabei cortando meu dedo médio, que sangrava muito. Na mesma hora, ela me pegou pelo braço e me levou ao quarto para fazer um curativo.
- Sente aí, Dizinho - disse ela apontando para a cama de casal.
Sentei enquanto ela procurava a caixinha de remédios. Depois, agachou-se na minha frente e pegou minha mão. Já sangrava menos o meu corte quando ela pegou meu dedo e levou-o junto à sua boca.
- Deixe-me dar um beijinho para sarar...
Encostou os lábios no meu dedo bem ternamente, o que me causou algumas reações fisiológicas. Quando percebi, ela passava a língua nele enquanto me olhava fixamente. Fiquei anestesiado por completo quando todo o meu dedo médio estava dentro da sua boca molhada. Só eu sei que sensação foi aquela. Arregalei os olhos e ela me deixou pegar nos seus peitos. Revirei os olhos por uns longos segundos até que ela quebrou o silêncio:
- Tá bom, menino. Você já está melhor. Agora, vá pra casa.
Levantou-se como se nada tivesse acontecido e foi para a sala, assistir televisão. Passei por ela sem saber o que falar e escutei:
- Quando Cylândio chegar, digo que você procurou por ele.
- Sim, senhora. Obrigado.
Naquela noite, tive os sonhos mais incríveis que uma pessoa pode ter.
Menos Cylândio...
Conheci Alberto quando eu tinha 9 anos e ele 7. Ele morava na casa ao lado e tinha o olhar mais safado que eu já vira. Agora que me dou conta disso... Alberto era a prova viva dos pressupostos freudianos sobre sexualidade infantil.
- Estou com dor de amor, doutora.
Depois desse dia do médico, continuei a freqüentar a casa dos Lima, mas nunca mais as coisas foram as mesmas. Alberto aproveitava todos os segundos em que ficávamos sozinhos. Certa vez, quando Vanessa estava doente e fui visitá-la, ele me chamou no final do corredor que dava para o quarto deles. Fui, receosa, mas fui. Betinho me puxou para junto dele e, quando menos esperava, passou os braços pelo meu quadril e segurou a minha bunda. Fiquei enlouquecida de raiva e dei-lhe um cascudo. Saí dali, mais uma vez, às pressas.
No meu aniversário de 10 anos, todos foram à minha casa. Num vacilo meu, enquanto eu ia deixar mais um presente que tinha ganho, Betinho me seguiu e entrou comigo no quarto.
E foi ali que descobri que o beijo não é oco como nas novelas. Meti-lhe a língua e, depois de assustar-se um pouco com minha invenção, logo senti a língua dele também.
Minha mãe me proibiu de ir à casa de Vanessa, embora ela pudesse vir à minha.
E eu e Alberto continuamos nossas aventuras amorosas, entre beijinhos ternos escondidos atrás da árvore da praça e pegadas que me deixavam envergonhada, por detrás do muro da minha casa.

O tilintar dos botões reluzentes dentro da caixinha de madeira projetava imagens na cabeça de Alexandrina. Imaginava-os costurados, um a um, no uniforme de outrem. Desde que isso começou a acontecer, a mocinha nutriu uma obsessão imoral por botões dourados.





(foto aos 5 anos de idade)


Anabela era uma recente balzaquiana, de rosto impassível aos anos que chegavam e, tão rápido, iam embora. Morava só, com seu papagaio, Boris, e seus dois peixinhos dourados. Boris falava muito, o tempo todo, como produto de um pós-modernismo de loucos. Quanto aos peixinhos, Anabela não sabia se eram fêmeas, machos ou um casal e, por questões práticas, resolveu primeiro escolher o gênero para poder colocar-lhes nomes. Preferiu acreditar que eram fêmeas e logo encontrou duas graças: Guilhermina e Narlosa.
A casa nunca ficava calma. Isso, porque Boris oscilava entre suas crises neuróticas e histéricas batendo as asas, incontrolavelmente, e falando/gritando pelos cotovelos - ou seja lá qual for a expressão mais adequada para caracterizar um papagaio que fala muito e não tem cotovelos. Guilhermina e Narlosa eram, aparentemente, tranqüilas. Fisicamente muito diferentes, Narlosa era "uma peixinha" dourada escura, pequenina e com nadadeiras grandes, tão grandes que Anabela resolveu cortá-las à tesoura cega. Guilhermina, a pobrezinha, era de um dourado mais claro e tinha a cabeça desproporcionalmente maior que o corpo franzino e incapaz. De vez em quando, por não conseguir equilibrar o peso da cabeça, Guilhermina bailava em uns nados estranhos, de ponta à cabeça ou como se estivesse bêbada. Era o motivo de deboche de todos os que a viam rodopiar.
Já com as peixinhas, Anabela não tinha muitos problemas. Comida três vezes ao dia no aquário - uma quantidade pequena - visto que elas não tinham senso crítico do quanto comer. Fora isso, a balzaquiana nunca descuidava da troca da água. Guilhermina e Narlosa eram completamente dependentes disso.
Até que, um dia, algo aconteceu. Apareceram umas larvinhas que nadavam livremente no aquário. Anabela tinha errado... Uma das peixinhas não era “inha”, mas um “ão” reprodutor que emprenhou a outra. Como ela não teria coragem de jogar pela descarga esses serezinhos vivos, resolveu separar o “casal” dos pequenos peixinhos, que mais pareciam vírgulas, pondo-nos em um outro aquário. Depois, querendo decretar o fim de possíveis novas reproduções, Anabela separou as “peixinhas”, deixando-as isoladas. Pronto. Agora não haveria mais surpresas.
E o impossível acontece. Numa manhã de domingo, enquanto em um dos aquários os filhotes agora estão crescidos, nos outros dois estão Guilhermina e Narlosa, cada qual com sua coleção nova de filhotes. Anabela enganara-se novamente. Eram, realmente, duas fêmeas. Duas fêmeas-alfa que não precisavam de um macho, sequer, para reproduzir. Voilà! Uma revolução social e sexual no mundo animal!
Depois disso, não se sabe exatamente o porquê, Boris entrou numa crise depressiva profunda e nunca mais proferiu uma palavra.
Depois disso, Anabela tomou gosto por criar fêmeas-alfa.
Depois disso, Guilhermina e Narlosa escreveram um livro e fizeram uma revolução.
E nunca mais debocharam do nado de Guilhermina...




Isso era um bom começo para decifrar a menina da sapatilha de bolinhas...


Palavras do próprio: " O negócio tá brabo. Esse ano está complicadíssimo."

Papai Noel desapareceu. Engraçado como nesse final de ano muitas pessoas me reclamaram de suas vidas. Eu também tive do que reclamar. Começo a achar que minha atenção seletiva só tenha captado esse tipo de relato. Claro! Se eu quero muito cortar o cabelo curtinho, só vou enxergar na rua as moçoilas de madeixas no queixo. Assim está sendo...
Na verdade, eu acho que Papai Noel esse ano vai tirar uma folga daquelas. Depois que passei a usar um "saco" de lona como mala ao ter virado uma neo-nômade, começo a me preocupar e me pergunto se não roubei por engano o saco do Santa Claus - sem duplo sentido, faz favor. Vai ver eu desequilibrei toda a sistemática do bom velhinho sem me dar conta. E isso está desencadeando um holocausto entre as pessoas que me são próximas.







Num impulso, levantei da cadeira rapidamente, peguei minha bolsa, guardei algumas coisas que estavam espalhadas. Guardei minhas lágrimas, meu orgulho e minha resposta rude. Disse “tchau” em sílabas automáticas, um abraço breve e gélido e os olhos que focavam o branco da parede, que fugiam do olhar dele. Merecia um revide, mas eu merecia um resto de dia
Ao fechar a porta, o quis fazer com força... desisti... Vinguei-me nos botões o elevador. Enquanto descia, andar por andar, minha raiva aumentava, minha mágoa explodia e a cabeça pensava. E pensava mais... O que há de errado em pensar?! É que quanto mais penso, mais me confundo.
Saí em passos largos dali. Já estava na rua tentando me afastar o bendito um quilômetro. Andei, andei... Conversava comigo mesma. Subi para o ônibus e fiquei absorta nas minhas sensações. Trânsito maluco. Havia um ligeiro engarrafamento. Os carros ficavam juntos demais. Dois olhinhos me fitavam, curiosos. Percebi de soslaio. Encarei. A menina abaixou-se, envergonhada. Sinal abriu...
Ironia... Paramos lado a lado mais na frente. Ela me olhava. Encarei-a novamente. Escondeu-se com a rapidez de uma lesma curiosa. Comecei a me interessar pela situação. Quando o trânsito fluía, eu torcia para pararmos próximas mais uma vez.
Oui! De novo! Mas eu não queria que ela se escondesse. Pensei que eu não devia estar com uma cara das melhores. Talvez a estivesse assustando com minha expressão grave. Lembrei que absorvo energias. Nesse momento eu me livrava das negativas que tinha recebido minutos atrás e roubava as boas da menina do carro.
Na terceira vez que paramos, sorri para ela. A menina escondeu o rosto infantil e só deixou os olhinhos pretos para fora, me fitando. Bastou-me.
Depois, não nos encontramos mais no corredor do tráfego. O engarrafamento tinha chegado ao fim. Foi a primeira vez que fiquei chateada com o trânsito livre.
Ah! E eu tinha conseguido escapar do raio de um quilômetro. Na verdade, tinha passado de dez. Meus pensamentos voltaram mais brandos pelos olhos da menininha. Uma menininha de seus três anos capaz de mostrar um outro lado para a menininha maior de idade.



...O camaleão se despediu da sua mãe e resolveu correr o mundo. Ficou vermelho quando beijou de despedida a sua namorada.
Na viagem, ganhava dinheiro ficando invisível em plena rua. Imitava os tijolinhos de Londres, a cor de areia de Paris, a cor branca das casas gregas.
Mas voltou para casa depois de um ataque de nervos quando, na Escócia, teve uma crise sem conseguir imitar o xadrez da roupa escocesa.
Voltou para casa e foi sua namorada quem ficou vermelhinha quando o beijou. E viveram vermelhinhos para sempre.
A HISTÓRIA NA ÓTICA DA CAMALEOA
(antes do “viveram vermelhinhos para sempre”)...
... Depois de beijar sua namoradinha camaleoa, o camaleão voltou às atividades normais do seu dia-a-dia. Ele era o livreiro da cidade. Garimpava livros antigos e tinha uma extensa lista de exemplares. As suas viagens para Londres, Paris, Grécia e à frustrante Escócia contribuíram para fazer do camaleão o mais famoso livreiro que o mundo já havia visto. E assim os dias continuaram passando...
... e a camaleoa, namorada dele, ficava cada vez mais esquecida. Não havia mais a saudade causada pela volta ao mundo que o camaleão sentira antes. E toda vez que a camaleoa batia o tapete, cheia de bobes no cabelo e gritando colérica com os guris que jogavam bola na rua, o camaleão se desencantava, inconscientemente. E cada pózinho jogado ao ar pelo tapete da camaleoa, cada pózinho dos livros velhos que o camaleão limpava todo dia, era como um pedacinho do encantamento mútuo que os dois tinham. E tinham cada vez menos...
CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA DA CAMALEOA PELO CAMALEÃO
E assim os dias continuaram passando e o nosso livreiro, agora reconhecido como grande escritor e livreiro, deixou que as cores lhe subissem pela cabeça. Cada dia se enfurnava mais em tomar as cores dos sonhos e desejos de seus leitores. Ter as cores da fama e da estima dos seus leitores fez com que ele esquecesse, pela primeira vez no dia 5 de outubro, de dar um buquê colorido a sua namoradinha camaleoa. Ele, tão absorto em seus planos de colorir o coração do mundo, não notou que esta desbotava em cinza cada vez mais intensos.
No dia 6 de outubro, indo encontrar sua amada num café, perdeu a página central de um livro ao ser arrancada por uma inesperada lufada de vento. Era um livro de bruxarias. Nesta noite, uma bruxa das trevas se instalou no casarão
FINAL PELA CAMALEOA
... e quando se deram conta, estavam os dois presos aos seus livros e aos tapetes... e ao pózinho que voava em cada batida...
O camaleão não foi embora. Não falou nada.A camaleoa se cansou dos bobes no cabelo... Ela foi embora ganhar a vida como antes tinha feito seu namoradinho. Ficava invisível imitando as pedras dos castelos portugueses, a cor cinzenta do céu de Londres, as luzes da Cidade-luz. A cidade-luz era a sua preferida... E quando ela tentou imitar as cores dos amores parisienses, não conseguiu. Foi embora... Frustrada.
Voltou para casa e reencontrou seu antigo namoradinho camaleão. Ela o beijou e os dois ficaram vermelhinhos para sempre (como nunca haviam ficado)...
FINAL PELO CAMALEÃO
O camaleão percebeu que perderia as cores dos livros para sempre. Naquela noite, em tons de cinza, invadiu o casarão da bruxa das trevas. Levava potes de todas as tintas. Mas não havia bruxa nenhuma na casa
O que é o amor? O que nos faz amar e ser amado? Não sei.
Oui, Amélie... Sutil Amélie...
Eles conversavam sobre algumas amenidades, sobre algumas perversões e sobre algumas características de personalidade. Ele disse que a achava "doidinha". Sou paixão até o último fio de cabelo. Faço com paixão... Eu crio minhas paixões e tento vivê-las. Paixão não é a pele somente, não é a palavra somente. As minhas paixões têm cheiro, textura, poesia, tragédia e comédia, exageros e minimalismos.
As minhas paixões são transeuntes num cenário inesperado e causam surpresa até a mim mesma. As minhas paixões vêm em forma de acordes novos e clichês, melancólicos e alegres. Elas vêm em forma de frases conexas e pensamentos fugidios, gramática correta e deslizes sintáticos.
Minhas paixões são gritantes! Têm cores vivas que saltam do papel que pinto, da lembrança que carrego, dos planos que faço. Têm sons curiosos...
Tenho mais paixões do que um otimista pode acreditar existir. Cada piscar de olhos, cada passo e abanares de cabeça: tudo com paixão.
Só que paixão consome energia, gera expectativa e gasta tempo. E aí? É como se ficássemos pelo meio do caminho. E só...


Algumas imagens insistentes, algumas frases que ecoam na cabeça o dia inteiro, alguns personagens ilusórios ou reais que contam suas histórias. Está tudo aqui. Tente ver.